De onde vêm as canções

Brandon Boyd, vocalista e letrista do Incubus, no palco com sua banda  (foto: Justin Wysong/brandonboyd.me)

Brandon Boyd: experimentando com o pop, em contrapartida ao seu trabalho com o Incubus (foto: Justin Wysong/brandonboyd.me)

Expressão artística

A expressão artística é, muitas vezes, marcada por uma expressão pessoal daquele que a desenvolve. É bastante comum ver obras de artistas serem bastante influenciadas por questões como o ambiente no qual ele está inserido e/ou o momento pelo qual passa. Saber usar a criatividade para transformar a inquietude em arte é realmente um dom que, uma vez dominado, pode se expressar de diferentes maneiras.

Essa é, certamente, uma característica que faz um bom artista conseguir com que as pessoas se relacionem com suas obras, pois encontram uma resposta e expressão para algo que sentem e, provavelmente, não sabem explicar. E o bom artista é aquele que consegue traduzir estas expressões de forma universal para diferentes formas de arte.

Sei que este pode ser um ponto de discordância de muita gente, mas acredito que, por vezes, o que menos importa em uma obra é exatamente seu resultado final. Muitas vezes o processo que o autor realiza é o ponto principal e o que realmente está expresso no trabalho. Por isso, defendo que uma boa obra pode ser tanto uma canção, como uma obra plástica etc.

Como este é um blog sobre música, o foco desta análise será sobre uma obra musical. Contudo, esta introdução é de extrema importância para entendermos a pessoa por trás das canções que motivaram este texto.

Um artista em constante movimento

Brandon Boyd trabalhando em uma de suas telas (Reprodução/So the Echo/brandonboyd.me)

Brandon Boyd trabalhando em uma de suas telas (Reprodução/So the Echo/brandonboyd.me)

Brandon Boyd é o vocalista e um dos principais compositores da banda de rock Incubus. A banda conta com grandes músicos, que dominam não apenas seus instrumentos, mas também as sonoridades e possibilidades que as canções oferecem. Brandon não foge a esta regra, com uma voz bastante distinta e facilmente reconhecida, ele se adapta a diferentes estilos e consegue expressar diferentes sentimentos através de sua voz.

Contudo, Brandon não é um artista de apenas um talento. Além de vocalista e letrista da banda, ele também é familiarizado e toca diferentes instrumentos. Além da música, Boyd é artista visual e escritor, com dois livros que combinam suas ilutrações/gravuras com textos lançados e já tendo realizado uma exposição de obras visuais que recebeu criticas bastante positivas internacionalmente, ele é conhecido por combinar os mundos da música, arte e ativismo. Muitas referências visuais da banda, desde capas de álbum até artes e litografias especiais de colecionador, são desenvolvidas por Brandon.

Quando penso em Brandon Boyd, a primeira referência que vem a minha mente é “água”. Pode parecer bastante vago e amplo, mas acho bastante pertinente e abrangente, em se tratando do artista que ele é. Sempre muito sincero e transparente, Brandon é o tipo de artista que coloca seus sentimentos de forma bastante clara e aberta no que faz, algo bastante fácil de se notar nas músicas do Incubus. Mas, também, é bastante adaptável a qualquer meio no qual precise se expressar, assim como a água, que se molda de acordo com o ambiente em que está, para poder ocupar todos os espaços. E, logicamente, a referência não seria completa se não fosse mencionada sua paixão pelo oceano. Nativo da Califórnia, cresceu surfando nas águas do Pacífico e, certamente, ganhando inspiração a cada onda.

E é baseado nessa maleabilidade que Brandon desenvolveu sua carreira solo, seu primeiro álbum The Wild Trapeze e, também, seu novo projeto Sons of the Sea são ótimos exemplos de como o artista deixa fluir seus sentimentos para canções se moldarem às necessidades musicais no momento.

Expectativas

A primeira coisa que eu devo considerar, ao começar a escrever sobre o EP Compass, lançamento do projeto Sons of the Sea, do Brandon Boyd, é que eu não posso ser imparcial em relação a este trabalho. Como todo trabalho que algum membro do Incubus lança, eu já vou com uma expectativa alta e, possivelmente, com uma abertura maior em relação a o que posso esperar.

Logicamente, isso leva a possíveis “problemas”. A primeira audição que tive da estreia de Brandon como artista solo, The Wild Trapeze (2010), foi, para dizer o mínimo, decepcionante. Hoje é muito fácil entender o porquê dessa decepção inicial. O último álbum que o Incubus havia lançado foi o Light Grenades (2006). Nesse meio tempo, a banda passou pelo Brasil e lançou uma coletânea com 2 músicas novas e outras 4 “inéditas” (sobras de estúdio de álbuns passados).

No momento em que foi anunciado um material inédito de um dos principais membros e compositores da banda – que eu considero como a minha favorita –, obviamente que a expectativa era ter um “novo álbum do Incubus”, de certo modo. Contudo, o álbum está bem distante do som e, até mesmo, dos temas abordados normalmente nas música da banda. Analisando atualmente, o estranhamento era algo que deveria acontecer e, possivelmente, era a intenção do próprio Brandon ao lançar o material. Depois de familiarizar-me com The Wild Trapeze, passei a apreciá-lo muito mais e perceber o quanto ele representa a força e a hetereogenidade de Brandon como músico e compositor, mostrando um lado que dificilmente veríamos nos trabalhos de sua banda principal.

Com isso em mente, o lançamento do projeto Sons of the Sea veio cercado de muita expectativa e pude recebê-lo de forma muito mais positiva e aberta que o álbum de 2010 de Boyd.

Entendendo a carreira solo de Brandon Boyd

Vocalista e compositor se aventura em um novo projeto (foto: Justin Wysong em brandonboyd.me)

Brandon Boyd se aventura em um novo projeto (foto: Justin Wysong/brandonboyd.me)

O Incubus nunca foi uma banda de ficar parada e estagnada em um mesmo estilo musical. Um ponto que gera bastante crítica para alguns fãs da banda, mas que é algo que eu aprecio bastante, o fato de eles sempre fugirem do possível “lugar de conforto”. A cada trabalho lançado, a banda tende a pender para algum estilo diferente. Ouvir os álbuns do Incubus é observar mudanças. Cada um possui uma característica bem clara e, ao mesmo tempo, mantém algo que une todos eles em uma linha histórica. Esta é a característica principal da banda, constantemente mudar, sem perder personalidade.

Brandon é um do membros fundadores da banda e a principal força de composição das letras da banda. Por isso, é bastante pertinente pensar que seu primeiro trabalho solo teria alguma característica que lembrasse bastante o Incubus. Na época do lançamento, eu não conseguia ver qual seria a característica, por se tratar de um trabalho tão diverso de tudo o que já conhecia de Boyd, contudo atualmente (especialmente após ouvir o Compass EP) é bem claro que a ideologia por trás de como deve ser um álbum, especialmente em um contexto maior, pensando em uma carreira toda, é a maior lição que Brandon leva do Incubus para seu primeiro álbum solo.

The Wild Trapeze

A melhor forma de descrever as canções do primeiro álbum solo de Brandon é com a definição que ele mesmo fez na carta de apresentação do trabalho:

a guy in room surrounded by toys who has an undying enthusiasm for finding out what each toy does, and has been given full license to make as much noise as he pleases.” (“Boyd’s take on The Wild Trapeze”, carta que foi publicada, na época, no site da banda sobre o lançamento do álbum do vocalista)

As músicas em The Wild Trapeze são cruas e, musicalmente, bastante diretas. A primeira impressão que se tem dessas canções é, exatamente, de estarmos de frente de uma coleção de esboços, arranjados em forma de canções. Uma forma mais pura e, até mesmo, selvagem de colocar aquelas expressões e sentimentos no mundo. Até certo ponto, é uma busca da música por ela mesma, pela expressão artística que ela pode representar.

Muitos dos temas do álbum percorrem, exatamente, esse processo em que o músico se encontrava e a busca por esse resultado artístico que, possivelmente, seria o primeiro passo para uma nova forma de expressão artística.

A primeira música de trabalho do álbum, “Runaway Train”, mostra exatamente esse caminho. A letra fala que Brandon está no centro de um triângulo amoroso com o futuro e a calamidade e que, quanto mais ele tenta fugir, mais atraído por esse “trem desgovernado”. Considerando o momento pelo qual Brandon passava, é possível fazer uma referência exatamente com seu processo de criação artística. O futuro, a calamidade e Boyd são os elementos que formariam, exatamente essas canções. O futuro seria o objetivo vislumbrado por Brandon, o ponto focal para a realização de um novo trabalho; a calamidade viria ao perceber possíveis limitações, inseguranças e a fuga de sua área de conforto, pois, por mais que ele já tenha uma longa experiência em composição, esse processo sempre é dividido com o talento de seus parceiros de banda. Obviamente, Brandon sentiu-se intimidado e bastante desconfortável nesse processo, mas cada vez sentia-se melhor de estar nesse processo.

O processo criativo, Brandon defende, deve ser um processo de liberdade. É isso que encontramos em “A Night Without Cars”, uma música com uma referência clara ao mundo animal, que fala exatamente de libertar-se e aproveitar essa possibilidade. O título da música surge exatamente na proposta de retomar a cidade, com a liberdade da selva. “Picture this; a night without cars,/just hooves and long legs./The two of us are horned and proud,/the city is ours again.” Essa referência é ainda mais clara quando pensamos na realidade que cerca Brandon, de Calabasas, no condado de Los Angeles, um local conhecido por ter um trânsito caótico (a cidade californiana possui uma das maiores frotas de automóveis do mundo). Abandonar o carro e tomar a cidade novamente, é uma forma de liberdade que só poderia ser encontrada na natureza. E o artista defende exatamente isso, que o fardo que ele carrega é exatamente se libertar, encontrar outra saída, pois o que o prende é ele mesmo: “If there are no such things as walls,/you’re not a prisoner at all”.

Talvez a música que mais diretamente endereça essa busca de expressão artística no álbum, na minha opinião, é “Courage and Control”. A canção mostra, realmente, como o processo se desenvolve, do momento inicial de inquietude e, ao memo tempo, fascinação com o mundo em que se vive e como isso se transforma em arte. O grande desafio que Brandon então encontra é conseguir balancear esses barulhos em uma canção. A solução vem através dos elementos presentes no título. “It’s time to let your hair down/and give yourself permission/it takes courage and control/but you start by letting go.” Com este refrão, Brandon reaproxima-se dos dois grades pilares que ele mesmo escolheu para representar o álbum: o selvagem e o equilíbrio. Para você conseguir se libertar, precisa ter consciência e controle, é preciso, também, muita coragem, pois é necessário desapegar-se do que a sociedade impõe à pessoa (voltar às raízes da natureza) e equilibrar-se para não perder de vista seu objetivo (o desafio do trapezista, conseguir realizar as acrobacias sem perder o equilíbrio).

Fazer The Wild Trapeze foi uma experiência de busca, além de uma identidade artística, mas uma identidade pessoal, explorando dilemas a profundidade incrível, para conseguir evoluir. Pessoalmente e artisticamente.

Sons of the Sea – o projeto

Sons of the Sea é um projeto liderado por Boyd e o famoso produtor Brendan O’Brien, que já trabalha com o Incubus em seus últimos 3 álbuns de estúdio, além de renomados nomes como Pearl Jam, Soundgarden, Bruce Springsteen e Rage Against the Machine. Ambos decidiram se juntar para compor músicas depois de finalizar o último álbum do Incubus, If Not Now, When? (2011).

“[O álbum If Not Now, When?] foi diferente o suficiente que ficamos curiosos em ver o que aconteceria se nós nos juntássemos e realmente escrevessemos músicas juntos”, afirma Boyd em uma entrevista à revista Billboard. O resultado são músicas pop com muitas variações, tanto de sonoridades, como também de sentimentos, sempre com uma influência de rock.

Boyd foi responsável pelas letras e vocais, com O’Brien fazendo as guitarras, baixos e teclados. A bateria no álbum foi gravada por Josh Freese (que já trabalhou com nomes como DEVO, The Vandals, Guns n’ Roses e Sting, entre tantos outros). No álbum, Brandon preocupou-se em utilizar sua característica voz como mais um instrumento, criando camadas de sons e sonoridades variadas, indo além do tradicional vocal que esperaria-se de um trabalho “pop”.

Compass EP

Compass EP (2013)

Compass EP (2013)

O EP é uma prévia de um álbum que está sendo lançado neste mês (setembro de 2013). E ele serve como uma prévia para o que os fãs podem esperar de Sons of the Sea.

A primeira canção é “Space and Time”, com grande influência pop, uma música bastante alegre e animada. Um clima californiano conduz esta primeira canção, situando o artista dentro de sua realidade, enquanto fala sobre ter jogo de cintura para lidar com as situações de uma relação. Apesar de ser uma música bastante positiva, ela aborda sentimentos de desapego e como as pessoas ainda ficam ligadas ao passado. E, deste processo, encontrar o “tempo e espaço” para conseguir livrar-se deste estigma é o desafio proposto por Boyd. Talvez essa relflexão e proposta de desapego, apresentada na música, seja uma forma de interpretar a abordagem de Boyd para essas canções. Não apegar-se ao lugar seguro de composição e aprender outras formas de expressar-se dentro do que já está bastante acostumado a fazer. É interessante perceber como isso se reflete na própria canção, pois, apesar de fugir dos padrões tradicionais de uma música do Incubus, é possível encontrar momentos que dão coerência ao conjunto da sua obra. Depois do segundo refrão, a música tem uma ponte que apresenta uma drástica mudança de sonoridade, com um ritmo mais cadenciado e uma vocalização de Boyd, trazendo a memória interlúdios encontrada em canções do Incubus, para então retornar, novamente, ao clima mais alegre e à melodia principal.

Apesar de explorar áreas bastante diferentes em questões musicais e, até mesmo, na forma de composição das canções de Compass EP, Boyd mantém uma semelhança com seu último trabalho musical (o álbum “If Not Now, When?”, do Incubus, que possui produção de O’Brien), a temática. Claramente, são músicas que falam sobre relacionamentos. “Come Together” vem a confirmar exatamente isso. De uma forma um pouco mais direta, a música – que mantém o tom mais positivo, enquanto ainda demonstra algumas incertezas. A música mostra um certo jogo de sedução em que ambos parecem testar suas armas e se envolver com o outro. Mas, Brandon não tem medo de admitir suas fraquezas e, possivelmente, até uma “derrota” neste jogo (e o conceito de derrota vem a ser muito questionável pois, a derrota aos charmes e seduções do parceiro o levaria a seus braços) mostra um lado que ele nunca escondeu. Em todos os álbuns do Incubus, a partir de S.C.I.E.N.C.E. (1997), encontramos uma composição que mostre uma grande demonstração dos sentimentos de Boyd para com uma parceira. Poderíamos chamá-las de “canções de amor”, se uma das principais características não fossem, exatamente, a dissociação de uma representação tradicional de sentimentos. Brandon faz seu tributo à pessoa amada (?) abrindo-se de forma extremamente sincera e nada piegas. Canções como “Summer Romance (Anti-Gravity Love Song)“, “Stellar“, “Echo“, “Here In My Room” e “Dig” são alguns dos exemplos mais claros. O sentimento expresso, por vezes, chega a beirar a devoção. Em “Come Together“, Boyd retoma esta forma de composição, dando uma roupagem completamente diferente.  O refrão mostra o personagem completamente entregue aos encantos da outra pessoa, como podemos ver em “When I think that maybe I’ve seen too much/You come around and dammit! I’m out of touch./Now I see you, and I need you on repeat, all the time/How in the world did you get to be so fine?“. Essa ligação de Boyd com sua parceira chega a parecer como um vício, um envolvimento tão forte que ele não consegue ficar distante.

Esse envolvimento tão completo e, em momentos, excessivo faz uma grande referência à forma como Brandon se relaciona com sua arte. E, talvez, essa seja a conexão que tanto sentido faz com todo o contexto de sua carreira solo. O artista se relaciona com sua obra (e seu processo de criação) como uma amante, envolvendo-se e esquecendo do mundo a sua volta, ele torna-se sua vida e, até mesmo, sua morte com a conclusão da obra. Contudo, a metáfora da morte, não é o fim, mas a passagem de uma vida para outra. “Where All the Songs Come From” é isso. Uma música que se destaca das duas anteriores no EP, com uma sonoridade mais melancólica (que em horas parece ter uma certa influência de bossa nova), ela explora exatamente esse processo. O próprio título já faz questão de ser bem direto: “de onde todas as canções vêm”. Boyd mostra-se muito mais confortável neste processo de composição do que em “The Wild Trapeze“, sabendo já de suas limitações e, também, já tendo enfrentado suas inseguranças, ele encara de frente esse desafio, admitindo que está lá por escolha própria e reconhecendo sua característica de demonstrar os sentimentos abertamente. E ele admite que é exatamente onde deve estar, pois é de onde vêm suas canções. Talvez um dos trechos da canção que mais demonstre esse amadurecimento e nova consciência de composição de Brandon é “On the way/If I stumble and bleed a bit/Remember half the fun is/Just being on the run, ya know“. Claramente, o processo de composição deste álbum foi algo muito mais proveitoso para Brandon, que já reconhece que, mesmo sofrendo neste meio, é o momento que deve ser aproveitado.

E, falar do processo é essencial para introduzir a última canção do EP. Diferentemente de seu primeiro trabalho solo, em Sons of the Sea, Brandon divide os créditos com Brendan O’Brien, o que pode ser notado claramente nos arranjos de todas as canções. Talvez, “Lady Black” seja a que tenha algumas características mais evidentes do trabalho deste sensacional produtor. Responsável pela composição instrumental, Brendan fez questão de utilizar a voz de Boyd como um dos mais potentes instrumentos do EP. A introdução desta canção, com diversas camadas vocais, além de ressaltar o grande talento do vocalista, também mostra a visibilidade do produtor de saber usar um de seus melhores recursos. A música é, talvez, a que mais possa se aproximar da sonoridade do Incubus, o que faz bastante sentido, contando que a música faz referência a algo que não está presente no momento atual do artista. E é de extrema importância ter essa consciência de a canção se passa em outro “espaço e tempo” do que ele se encontra. O começo da letra serve exatamente para localizá-lo dentro da realidade que ele apresentará: “In New York (…) When I was young“. A história que Brandon conta pode não ter acontecido literalmente (de ele ter uma paixão e uma conexão com uma garota em Nova York que, após uma noite de grande intimidade, desapareceu), por isso é importante que ele faça essa distinção da realidade atual. Nova York, que pode ser muito mais identificada no inconsciente como uma “selva de pedras”, acaba servindo como uma antítese à Califórnia, do clima praiano e veraneio que a musicalidade das primeiras canções do álbum demonstram. Como no início de um conto de fadas – em que o autor dissocia qualquer realidade utilizando referências como “era uma vez, em um reino distante” – Brandon também estabelece um espaço/tempo fora da realidade dele, para poder contar essa história. A referência aos contos de fadas são, também, bastante pertinentes, já que ele se relaciona com um ser misterioso (a quem ele se refere como “Lady Black“), muito mais apegado às sensações de estar com ela do que a pessoa em si. E isso, talvez, seja uma forma de ele olhar a forma como sempre se relacionou às artes. Uma forma tão intensa, tão apaixonada que, quando aquele processo artístico terminava (que ele apresenta na letra como “uma noite de diversão com a Lady Black”), ele se sentia perdido e abandonado. Aquela amante que o acompanhara por uma experiência tão intensa, havia desaparecido. Mas, o processo artístico tende a se repetir, como o refrão da música dá a entender, mostrando que as inseguranças e questionamentos tendem a voltar a cada novo “flerte” que ele tem com uma nova obra:

Your smile seems so familiar
Like maybe we’d met before
If we had, girl, I was a fool to forget.
The deep end sounds inviting
And she s already in
Should I stay dry?
Or should I get wet?
Do I hang on?
Or should I let go?
Should I let go?

De onde vêm as canções?

Brandon Boyd

Brandon leva uma vida marcada por criatividade e autoexpressão (Divulgação)

Talvez o melhor encerramento para este texto é, exatamente, questionar a afirmação que Boyd faz no álbum e, claramente o responde. De onde vêm as canções?

Obviamente, Brandon é apaixonado pela arte e, especialmente, por fazer arte. E as canções vêm exatamente dessa paixão inigualável. O amor do artista é exatamente o motor que o movimenta para poder, constantemente, fazer arte e fazer amor. Em uma recente entrevista, Brandon resume essa paixão, ao ser questionado sobre o que o faz feliz, mostrando que

Ahhhh. Fluidity. Honesty. It sounds cliche ́ but I’ve really been learning the past 5 or 6 years that the more I just get out of the way and allow whatever the process is to flow through.

(Interview: Brandon Boyd – So the Echo. Entrevista para Tyler Curtis, do Nylon Guys)

E, dessa forma, como água, Brandon transita por meio das artes, adaptando-se ao terreno a sua volta para atingir seu objetivo final e mostrar, como um rio que corta vales e montanhas para chegar ao mar, que o mais importante, para ele, é o processo de criar essas obras. É a vida que vive nesse tempo.

~ por Fábio Gianesi em setembro 30, 2013.

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