Um refúgio de John Mayer

John Mayer, em foto de divulgação do álbum Born and Raised (2012), abraçou o estilo cowboy em todos os aspectos de sua vida. (Divulgação)

Grandes Canções, Grandes Composições

Uma grande canção pode se destacar por algum elemento em específico. Uma performance especial de algum dos músicos (ou todos os músicos) pode fazer uma música ser incrível e se sobressair na carreira do artista. Podemos usar como exemplo deste caso a música The Best of Times, do Dream Theater. Uma bela letra escrita pelo baterista Mike Portnoy sobre as lembranças de seu pai é acompanhada por uma guitarra incrível de John Petrucci, transformando a música em uma homenagem sensacional.

A letra pode ser um desses elementos que transforma a música em uma obra memorável. Podemos dividir as músicas que se destacam por suas letras de diversas maneiras, mas eu acho interessante dois formatos: canções que expressam sentimentos extremamente sinceros e músicas que contam grandes histórias. Dessa forma, podemos mostrar duas formas bastante opostas de representação, uma mais objetiva (uma história) e outra mais subjetiva (sentimentos).

No caso subjetivo, vem a minha mente dois exemplos de canções que considero se destacar por expressar sentimentos e os expor de forma incrivelmente sincera. Joni Mitchel em seu álbum Blue (de 1971) colocou para fora seu coração, abrindo suas decepções e dores e, com isso, criando pérolas como A Case of You, uma de suas canções mais sinceras e mais bem-conhecidas. Outro exemplo é do cultuado artista Jeff Buckley, jovem cantor que faleceu na década de 90 tendo apenas um álbum lançado, o sensacional Grace (de 1994). O disco possui canções extremamente sinceras combinadas com interpretações sensacionais, nas quais ele toca e canta com os sentimentos na ponta dos dedos e na sua distinta voz, como a bela Forget Her.

Como exemplo de canções mais “objetivas”, como cito nos parágrafos anteriores, que se tornaram ícones, podemos citar dois clássicos, que contam uma grande história e, mesmo sendo longas (fugindo dos padrões da música pop, de possuir um tamanho médio de cerda de 3-4 minutos, com refrões e métricas simples), conseguiram cativar o público e se tornarem sucesso. Faroeste Caboclo (1978/1987) da Legião Urbana que, mesmo tendo 168 versos e mais de 9 minutos de duração, sempre recebeu rotação em rádios e, nos shows, era acompanhada do começo ao fim pelo público. E Hurricane (1975), de Bob Dylan. A canção de protesto que retrata e denuncia atos de racismo que foram cometidos contra Rubin “Hurricane” Carter, um boxeador negro que havia sido erroneamente condenado por assassinato em duas ocasiões.

O que ambas canções apresentam em comum: uma narrativa de uma grande história, contada do princípio ao fim, com bastante detalhes. São músicas clássicas, escritas por grandes compositores, que são marcos do rock.

John Mayer
Walt Grace’s Submarine Test, January 1967

Uma canção que consegue apresentar tanto uma história muito bem criada ao mesmo tempo que se destaca pela sinceridade de sua letra, sendo um desabafo do autor em relação a seus sentimentos, é “Walt Grace’s Submarine Test, January 1967”, do mais recente álbum de John Mayer, Born and Raised (2012).

O intuito deste artigo é analisar o porquê desta música conseguir transitar por estes dois pontos: a sinceridade de sentimentos e uma história bem criada, com seus fortes personagens e muito bem contada. Para isso, vamos conhecer um pouco sobre o autor, a realidade em que se encontrava e muitas das referências que encontramos na letra dessa música, tanto quanto no resto do álbum de John Mayer.

Introduzindo John Mayer

Battle Studies - Studio

John Mayer durante a gravação de Battle Studies (2009). (Divugação)

John Mayer é bastante conhecido por compor sempre canções extremamente sinceras, revelando seus sentimentos e emoções de forma bastante direta. Muitas vezes, é mal interpretado por escrever canções que falam abertamente de seus sentimentos e experiências. Ouvir um de seus álbuns é entender o que está se passando em sua vida, podemos perceber isso bastante claramente nos três mais recentes álbuns do artista: Continuum (2006), Battle Studies (2009) e Born and Raised (2012).

Com mais de 10 anos de carreira, John Mayer já se consolidou como um dos principais nomes do blues-rock e do pop-rock atualmente. Considerado um dos melhores guitarristas de sua geração, ele sempre busca se reinventar a cada álbum. Mas, John também é bastante conhecido por sua vida pessoal, seus relacionamentos com celebridades “high-profile” e, também, suas declarações polêmicas sobre assuntos diversos.

O álbum de 2009, Battle Studies, foi baseado bastante em experiências de John com relacionamentos problemáticos com personagens como a cantora Jessica Simpson e a atriz Jennifer Aniston. Neste período o cantor se tornou figura constante em tablóides e sites de fofoca, constantemente contestado por sua conduta em Hollywood e suas escolhas pessoais e amorosas.

No meio desta tempestade pessoal, dois momentos destacam-se como chave para entender melhor a crise pela qual Mayer passava.

O primeiro momento aconteceu em abril de 2010, em uma entrevista bastante controversa para a revista Playboy. O músico fez comentários explícitos sobre sua vida sexual com suas ex-namoradas famosas, misógenos e até mesmo, racistas. Este foi um prato cheio para todos aqueles que se alimentavam de seu momento difícil.

O segundo momento foi o lançamento da canção Dear John, de Taylor Swift. A cantora, considerada a atual queridinha da América, desabafa sobre um suposto relacionamento com Mayer após a colaboração de ambos na faixa Half of My Heart, do álbum Battle Studies. A letra de “Dear John” mostra um homem que joga “dark twisted games” com uma garota apaixonada e que possui uma “doentia necessidade de dar amor para, em seguida, tirá-lo”.

A repecursão da entrevista da Playboy e da música de Taylor foram os principais motivos que levaram John Mayer a abandonar a “cidade grande” (Nova York e, mais recentemente, Los Angeles) e se mudar para o interior – em uma pequena cidade de Montana – para fugir um pouco da atenção da mídia e dos holofotes.

É neste novo cenário rural e introspectivo que John compõe “Born and Raised”.

A Canção

“Walt Grace’s Submarine Test, January 1967” começa com um leve dedilhado de um violão e um solo de trumpete, excepcionalmente executado por Chris Botti. Uma introdução que estabelece um tom melancólico e solitário para a canção, criando o clima ideal para a canção que segue. Em seguida, uma bateria com um ritmo de marcha tocada por Aaron Sterling alavanca a música para a entrada do vocal.

A letra desta canção conta uma história que Mayer criou de um homem (Walt Grace) que resolve criar um submarino e se jogar em uma aventura no mar. O personagem da canção, então, se isola do mundo, enquanto ouve as pessoas próximas a ele dizerem que ele nunca conseguirá e o rotular como “louco” por tentar. Enfrentando tudo e todos, ele cria seu submarino e embarca na desejada jornada que tem como destino final o Japão (em Tóquio).

Walt Grace acaba por tornar-se uma lenda por seu feito de “sair em uma jornada de um submarino caseiro para uma só pessoa” (“he took a home-made fan-blade submarine ride”).

Esta música foge um pouco da tradicional linha de composição de John Mayer, visto que esta é uma das poucas canções dele que apresenta uma narrativa focada em um personagem.

A Jornada de Jonh Mayer e seu submarino

Apesar de, em nenhum momento, John Mayer fazer qualquer referência de que Walt Grace pode ser ele mesmo, há muitos indícios que fazem crer isso. Antes de gravar Born and Raised, John encontrava-se em um momento difícil de sua vida e procurou refugiar-se para poder criar uma obra que o libertaria. Naquele momento, o refugio significava sobrevivência. Assim como John, Walt Grace precisava dessa fuga da realidade, que por mais difícil que fosse, lhe traria a felicidade e o levaria para um novo mundo, que ele tanto almejava.

A vida solitária é algo com a qual John Mayer já estava acostumado (e que é uma constante do show business). Ele mostra um pouco de como é um “tradicional” dia em sua vida em um vídeo chamado “A Life in the Day”, no qual a câmera mostra, em sua maioria, o ponto de vista do artista durante todo o dia.

“A Life In The Day” from John Mayer on Vimeo.

Mesmo com toda essa solidão, é difícil do artista conseguir um momento “calmo”. Essa realidade torna-se uma fonte de contradição sem tamanho que, mesmo só, o artista dificilmente encontra paz. E, então, neste processo de “reclusão” que John Mayer se colocou, ele finalmente encontrou essa paz para repensar sua vida. Walt Grace também encontra, nesta sua jornada, este momento de silêncio, de contemplação e paz. Então, neste momento em que ele retorna à superfície em busca de ar, ele se depara com um belo céu.

É quase impossível não fazer uma relação deste céu de Walt Grace com o que John canta na canção 3×5, de seu primeiro álbum: “today skies are painted colors of a cowboy’s cliché”. Vivendo esta nova vida, John claramente tem uma visão diária do céu de cowboy de Montana, uma grande influência para a música que compõe.

A história de Walt Grace vai sendo concluída quando a narrativa mostra que Walt deixa de ser apenas uma pessoa com um plano maluco para se tornar um exemplo de coragem, uma “lenda”. Neste momento, a narrativa é voltada não mais a Walt, mas àqueles que antes estavam a sua volta.

Este trecho, que também serve para novamente conectar John com seu personagem, diz: “One evening, when weeks had passed since his leaving/The call she planned on receiving finally made it home/She accepted the news she never expected/The operator connected the call from Tokyo”. A referência a Tóquio é reveladora para aqueles que conhecem a apreciação que o compositor possui pela terra do sol nascente. Tóquio é o lugar preferido de John Mayer. Em seu álbum anterior, na canção “Who Says?“, ele volta a mencionar o país: “Who says I can’t get stoned? Plan a trip to Japan alone/doesn’t matter if I even go/Who says I can’t get stoned?”.  Mayer viajou para o Japão durante o processo de composição de Battle Studies em 2009 e a aventura foi devidamente registrado em video.

Um grande indício de que esta sua nova vida em Montana, longe das tentações e loucuras de Los Angeles, se tornou como uma viagem de submarino para John encontra-se na primeira canção do álbum Queen of California. Nela, ele canta que “Joni wrote Blue in her house by the sea/I got to believe there’s another color waiting on me/to set me free”. Esta referência à obra-prima de Joni Mitchell, o álbum Blue (que citei no começo do artigo e foi uma grande influência para John na composição de Born and Raised, como também em sua nova vida)  se encaixa bastante tanto na realidade de John, como de Walt Grace. Joni precisou da tranquilidade de sua casa na praia para poder escrever a obra que mudou os rumos de sua carreira e é, até hoje, considerado como um dos mais importantes e melhores álbuns de todos os tempos. John precisou de sua nova casa em Montana (e tudo o que essa mudança representa, não apenas o local) para criar sua obra “libertadora”. Walt Grace precisou se isolar em seu porão para construer o submarino que mudaria a sua vida.

O legado de Born and Raised

John Mayer - Born and Raised Studio

John Mayer no estúdio, durante a gravação de seu mais recente álbum. (Divulgação)

Não acredito que Born and Raised seja o álbum definitivo do John Mayer e que, até mesmo, seja a melhor obra que ele já produziu até o momento. Em minha opinião, tanto o Continuum (2006) quanto o Battle Studies (2009) são melhores e mais completos que esta obra. Contudo, o próprio John espera ainda encontrar “a cor que irá libertá-lo”, como o azul (blue) foi para Joni.

Voltando à comparação que fizemos entre John Mayer, Joni Mitchell e Walt Grance, nos três casos, podemos identificar que esse momento de reclusão e “desaparecimento” foi o ponto de mudança para a vida, moldando a pessoa/artista que seria conhecido. Joni, atualmente, é cultuada por ser uma grande compositora; Walt Grace se tornou uma lenda em sua cidade, sendo lembrado por seus amigos quando bebem, os mesmos que antes duvidaram que ele conseguiria completar essa jornada. Quanto ao John Mayer, somente o futuro poderá dizer se sua viagem de submarino teve o efeito esperado, marcando sua vida e obra.

Obrigado à minha amiga Carol Stevens, do John Mayer BR, pela ajuda final neste texto.

~ por Fábio Gianesi em setembro 27, 2012.

2 Respostas to “Um refúgio de John Mayer”

  1. Belo texto

  2. Esse foi o post mais completo e bem escrito que já vi. Parabéns pelo trabalho!

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