Despindo canções – O Melhor do Acústico MTV

Os Acústicos MTV são normalmente considerados como uma forma de “recuperar” a carreira de artistas que estão “esquecidos” da grande mídia e público. De fato, muitos artistas tiveram novas oportunidades em suas carreiras depois de fazerem os shows desplugados para a Music Television. Contudo, eu vejo os acústicos como uma forma do artista entrar em contato com sua música de modo muito mais profundo e, talvez, até mesmo chegar a conhecê-la melhor. Ao se fazer um arranjo diferente para uma música, a primeira ação a ser tomada deve ser levar a música a sua origem, a sua base e, muitas vezes, é isso que encaramos nas versões acústicas.

Dessa forma, quando eu penso naqueles acústicos que eu mais gostei, já me vêem à cabeça os acústicos que têm como mote a  simplicidade, ao invés da grandiosidade. Aqueles acústicos que buscaram a essência de cada música, ao invés de incrementá-las com novos arranjos e instrumentos. Como músico, é interessante ver as canções despidas e levadas ao seu básico e, imagino que isso aconteça com os próprios artistas, de conhecer a canção novamente, como uma redescoberta.

Pearl Jam

Ano: 1992

Eddie Vedder colocando todas suas emoções em Black, no MTV Unplugged

Eddie Vedder colocando todas suas emoções em Black, no MTV Unplugged. (foto: Divulgação)

O ano era 1992 e Pearl Jam estava no auge, com o álbum TEN disparado nos charts e suas músicas com altíssima rotação nas rádios e televisões musicais de todo o planeta. O convite para fazer um acústico era uma questão de tempo e ele aconteceu. Contudo, como transpor toda a raiva e agressividade do grunge para este formato? Este não foi um problema para a banda, que mostrou que a raiva e a indignação são sentimentos muito fortes que podem ser expressados além das guitarras distorcidas e do peso que a banda traz para o palco. Os sentimentos foram mostrados de forma bastante viscerais e verdadeiros, como podemos ver na performance de Black que a banda fez no show.

Mas, eles não deixaram de lado a raiz da banda e fizeram, ainda assim, um show bastante enérgico e que teve espaço, até mesmo, para manifestações político-sociais do vocalista Eddie Vedder. Como podemos ver na sensacional performance de Porch do acústico, com Eddie Vedder subindo em seu banquinho e escrevendo “Pro-Choice” em seu braço (referente ao Movimento Pro-Choice, movimento para a legalização do aborto que estava em discussão na época nos EUA que defende a liberdade individual da mulher em escolher ter o filho ou não) e Jeff Ament subindo com seu baixolão no bumbo e batendo nos pratos da bateria. A banda não se deixou intimidar pelo clima “intimista” e “tranqüilo” que o Unplugged deveria ter e fez exatamente o que tanto me atrai neste formato, mostraram suas raízes e levaram sua música ao denominador mais básico, a emoção.

Dashboard Confessional

Ano: 2002

Chris Carrabba, o fundador do Dashboard Confessional (foto: www.shotmonster.com)

Chris Carrabba, o fundador do Dashboard Confessional (foto: http://www.shotmonster.com)

Falar em emoção é falar de Dashboard Confessional. Chega até mesmo a ser uma piada sem graça, pois por serem uma das principais bandas que surgiram no cenário emo nos EUA nos anos 2000, a emoção já está ligada diretamente à música deles. Contudo, o que faz o MTV Unplugged 2.0 ser excepcional vai muito além de eles serem uma boa banda. Primeiramente, até o momento do lançamento do álbum, a banda era basicamente acústica, com músicas tocadas no violão, baixo, bateria com um eventual piano, portanto, o acústico na época era a essência da banda. O próprio vocalista e fundador da banda, Chris Carrabba faz brincadeira com isso no começo do show, apresentando da seguinte forma:

Welcome to Dashboard Confessional Unplugged… which may sound a little redundant…

Mas, brincando ou não, isso contribuiu para que o espírito da banda fosse mostrado de forma mais pura, exatamente como um acústico deve ser. E, para isso, eles resolveram criar um clima mais intimista possível, com a gravação sendo feita em um estúdio localizado no prédio da MTV em Nova York, localizada no coração da cidade (na famosa Times Square), sem grandes produções e com um público selecionado dos principais fãs da banda. Isso possibilitou, realmente, um envolvimento ainda maior de toda a audiência, tornando-se um membro essencial da apresentação. Logo na primeira música, The Swiss Army Romance, podemos ver como a participação do público é importante para o sucesso do show.

A ideia de “despir” a banda de arranjos e trazer à tona a essência principal da música condiz bastante com a proposta do Dashboard Confessional e, até mesmo, do estilo. Trazer a emoção à tona sem máscaras e sem disfarces. Eles já haviam demonstrado isso em todos seus álbuns (como podemos lembrar na análise do So Impossible EP que fiz aqui mesmo no blog). Mas, fica-se a dúvida, se pegarmos uma música que já existe no seu estado mínimo, o que devemos fazer para o acústico? E foi exatamente nisso que a banda mostrou-se muito boa e o resultado que podemos conferir na versão de Hands Down. A música que, originalmente, era voz e violão, agora ganha a força e o ânimo de toda a banda, criando um sentimento de euforia e excitação, que se conecta diretamente à letra e à experiência que Chris Carrabba define como “the best day that I’ve ever had!”.

Alice in Chains

Ano: 1996

Layne Stanley e Jerry Cantrell tiveram ótimas performances no Unplugged MTV (foto: MTV)

Layne Stanley e Jerry Cantrell tiveram ótimas performances no Unplugged MTV (foto: Divulgação)

Emoção e sentimentos, é dessa forma que podemos descrever a performance de Layne Stanley no MTV Unplugged do Alice in Chains. As músicas da banda em versões acústicas se tornaram muito mais introspectivas e criaram um clima soturno. Todo esse clima é reforçado pela produção do palco e cenografia, com luzes em tons frios e velas. Complementado com ótimas performances de Stanley e, também, Jerry Cantrell, então temos uma apresentação memorável. Down in a Hole é um ótimo exemplo de como as canções da banda se adequaram ao formato acústico.

Novamente, encontramos um acústico que prima pela simplicidade. Ao apostar nessa forma, abre-se espaço para as performances individuais se sobressaírem. E foi exatamente o que aconteceu na apresentação da banda. Em Would?, Layne Stanley coloca para fora seus sentimentos de não pertencer e deslocamento deste mundo, no que é considerada uma de suas melhores performances desta canção. O violão e vocais impecáveis de Cantrell, com o baixo forte e preciso de Mike Inez em perfeita sintonia com a bateria de Sean Kinney são fundamentais para fazer com que, após executar a canção, Stanley diga que “this is the best show we’ve done in 3 years”.

Kiss

Ano: 1996

A ideia para o Unplugged MTV do Kiss surgiu após uma apresentação acústica em um encontro do fã-clube oficial da banda (foto: MTV)

A ideia para o Unplugged MTV do Kiss surgiu após uma apresentação acústica em um encontro do fã-clube oficial da banda (foto: Divulgação)

Quando uma grande banda como o Kiss anuncia que fará um Acústico MTV, deve-se esperar sempre algo de especial. A banda que sempre faz suas apresentações serem grandes espetáculos, com efeitos especiais/visuais e grandes performances. Neste acústico, eles foram na linha contrária: apenas a banda e o público (eles contaram com a  participação de um pianista e uma pequena orquestra para apresentar a nova canção Everytime I Look at You). Mas, como é o Kiss, sempre deve-se esperar alguma surpresa especial. E, no MTV Unplugged, foi a participação dos membros originais Peter Criss e Ace Frehley.

Mas, o que faz este show entrar na minha lista dos melhores acústicos da MTV não é necessariamente a presença da formação original da banda, depois de tanto tempo, mas o gosto que todos estavam de tocar ali. Podemos perceber isso pelas performances individuais, mas, chamo atenção para dois momentos em especial. A hora em que Peter Criss assume os vocais principais em Rock and Roll All Nite (por volta de 1:55 min do vídeo acima) e, especialmente, a performance de Paul Stanley em I Still Love You. Não sou o único a concordar que esta é, certamente, a melhor versão da música, cantada com muito sentimento e força, uma demonstração de toda a capacidade vocal de Paul, combinado com os solos impecáveis de Bruce Kulick.

Legião Urbana

Ano: 1992

Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, apostaram em manter a formação mínima para o Acústico MTV (foto: Divulgação)

Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, apostaram em manter a formação mínima para o Acústico MTV (foto: Divulgação)

Quando em divulgação para o álbum V (1991), a Legião Urbana foi oferecida fazer um acústico ao invés de um vídeo-clipe, eles aceitaram na hora. O Acústico MTV da Legião foi, durante muito tempo, considerado o primeiro projeto do tipo na MTV Brasil (foi gravado em 1992), apesar de terem sido gravados outros dois anteriormente (Marcelo Nova, 1990, piloto que não foi ao ar na época, e Barão Vermelho, 1991, que veio a ser lançado em 2007).  No caso da Legião, o Acústico passou na televisão no ano e a versão de Teatro dos Vampiros foi veiculada como “vídeo-clipe” da banda na programação da emissora. O álbum do Acústico MTV só foi lançado em 1999, após a morte de Renato Russo. Na época algumas canções fizeram parte da coletânea ao vivo Música para Acampamentos (1992): O Teatro dos Vampiros, Eu Sei, “Índios”, Mais do Mesmo e On the Way Home.

A apresentação que a Legião Urbana faz no Acústico foi considerada uma das melhores da série exatamente pela simplicidade. Renato Russo (violão e voz), Dado Villa-Lobos (violão) e Marcelo Bonfá (bateria/percussão) estão extremamente soltos, executando as músicas como para os amigos, em momentos até mesmo com os instrumentos levemente desafinados. A apresentação tem muitos erros, mas mostra uma banda extremamente feliz em tocar dessa maneira, provavelmente redescobrindo suas canções. E, também, mostra ótimas versões das músicas, como podemos destacar “Índios”, que Renato Russo descreve como “um fado grego” e é considerado um arranjo definitivo por fãs da banda.

O formato que eles escolheram gravar o especial também foi interessante. Como o foco era divulgar o novo álbum, como o próprio Renato Russo falou no começo do show:

A gente decidiu fazer o seguinte: tocar uma música de cada disco, algumas do disco novo e depois a gente tem algumas surpresas para vocês.

Dentre as citadas “surpresas” estão covers de artistas estrangeiros (como PIL, Joni Mitchel e Neil Young/Buffalo Springfield) e músicas como Faroeste Caboclo e Metal Contra as Nuvens, conhecidas por serem as duas mais longas canções da banda, sempre em uma versão adaptada para os dois violões e a bateria. Outra versão que ganhou uma bela roupagem foi Teatro dos Vampiros, do álbum mais recente da banda na época. Para o acústico, eles mudaram a introdução da música, usando um parte que havia sido composta para o álbum, mas não foi usada em nenhuma música.

Eric Clapton

Ano: 1992

Clapton, com seu violão Martin 000-42 que, em 2004 foi vendido em um leilão por US$ 791.500,00 (foto: Divulgação)

Clapton, com seu violão Martin 000-42 que, em 2004 foi vendido em um leilão por US$ 791.500,00 (foto: Divulgação)

Qualquer performance de um gênio da música como Eric Clapton já deve-se prestar atenção. Seus shows são sempre cheio de clássicos muito bem executados, com muita qualidade. No acústico não seria diferente! Apesar de o Unplugged fugir do padrão que digo gostar, de simplicidade musical (a banda dele era composta de 7 integrantes), considero um dos melhores acústicos já feitos pela MTV por um motivo: o blues é um estilo musical que começou acústico, com os trabalhadores das plantações de algodão no sul dos Estados Unidos tocando suas tristezas e indignações. Pegar um artista de blues/rock para tocar em um acústico é certeza de um retorno às raízes. E foi exatamente isso que aconteceu, como podemos ver na clássica Before You Accuse Me, clássico de Bo Diddley!

Eric Clapton selecionou diversos clássicos do Blues para tocar no acústico, interpretando artistas como Robert Johnson e Muddy Waters, além do já mencionado Bo Diddley. Mas, Clapton não esqueceu de algumas de suas próprias composições, apresentando versões acústicas de canções como Tears in Heaven, Layla e Old Love. E é nesta última que encontramos uma das mais espetaculares performances, tanto de Clapton como dos músicos de sua banda de apoio.

Bônus

Este post é para falar da série Acústico MTV (MTV Unplugged), mas não posso deixar de comentar duas apresentações acústicas que aconteceram em premiações da MTV que são sensacionais.

Bon Jovi

Músicas: Livin’ on a Prayer & Wanted Dead or Alive
Premiação: MTV Video Music Awards
Ano: 1989

A banda iria se apresentar na premiação da MTV e resolveu fazer algo diferente. Jon Bon Jovi e Richie Sambora, cada um com um violão subiram e fizeram um medley das, que são dois dos maiores sucessos da banda. Esta performance é creditada como a inspiração final para a MTV criar a série Unplugged. Não há uma confirmação oficial para esta informação, contudo, é dito que os produtores da MTV já haviam pensado em produzir uma série de programas com as bandas tocando de forma acústica e que, após o sucesso e a resposta positiva desta apresentação da banda na premiação do ano de 89, decidiram começar a produzir os especiais.

Alanis Morissette

Música: Your House
Premiação: MTV Video Music Awards
Ano: 1996

Em 1995 e 96, o rock tinha um rosto e um nome. Alanis Morissette lançou seu álbum Jagged Little Pill (1995) e conquistou o mundo com seu jeito tranquilo e tímido e suas canções intensas, com temas que vão de frustrações com a vida, decepções amorosas e sua visão de um mundo apático a sua frente. Ela tornou-se a voz da geração e representou um novo respiro para a música nos anos 90, mostrando que tudo não havia morrido com o falecimento de Kurt Cobain e o declínio do grunge. O álbum possui uma música escondida, em que Alanis canta, a capella, sobre uma pessoa que vai na casa do amado, enquanto ele(a) não está, para sentir-se mais próximo dele(a). O(a) perfeito(a) stalker, sentindo o cheiro da pessoa amada, até se deparar com uma carta de amor de outro(a). A música era usada de encerramento dos shows da turnê, com Alanis cantando parte a capella e, então, sendo acompanhada por um violão para, então, terminar a música sem o acompanhamento do instrumento. Ela apresentou essa fantástica versão em que o violão torna-se a pessoa amada e sua presença some, junto da esperança da personagem da música, no VMA’s de 1996.

E para você? Quais foram os melhores Acústicos MTV em sua opinião?

~ por Fábio Gianesi em maio 3, 2012.

2 Respostas to “Despindo canções – O Melhor do Acústico MTV”

  1. The Corrs, Nirvana e Titãns. Os 3 mais marcantes para mim de longe, por motivos muito diferentes.

  2. Muito bom.

    Estou resgatando o Legião do fundo do baú aqui.

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