Artwork – a saída para um momento de crise

A banda, com sua mais recente formação (foto: theused.net)

Dan Whitesides (bateria), Bert McCracken (vocal), Quinn Allman (guitarra) e Jepha (baixo), a mais formação da banda que gravou "Artwork" (foto: theused.net)

Para muitos artistas, momentos de crise são extremamente férteis para a criatividade. O resultado de um período como esse, além de uma obra de arte, também é uma forma de terapia para poder superar essa dificuldade. Foi exatamente isso que The Used enfrentou em 2008.

Branden Steineckert saiu do The Used e, atualmente, toca bateria no Rancid (foto: Vater Percussion /  http://www.vater.com/)

Branden Steineckert saiu do The Used e, atualmente, toca bateria no Rancid (foto: Vater Percussion / http://www.vater.com/)

 
Após a expulsão do baterista (e um dos fundadores da banda) Branden Steineckert, em 2006, a banda lançou o fraco álbum LIES FOR THE LIARS. Nele, a banda soa extremamente produzida, perdendo algumas características que encontramos nos dois primeiros álbuns de estúdio. Ao final da turnê em divulgação do álbum, Bert McCracken (vocalista) passou por uma cirurgia para remover um nódulo em uma de suas cordas vocais.

 
Passar por um momento tão conturbado certamente levou a banda a retomar o espírito que tinham na época do primeiro álbum. Todas essas dificuldades que eles enfrentaram nestes últimos tempos, formam as composições de ARTWORK (2009). Fato que eles mesmo não se preocuparam em esconder ou mesmo maquiar.

Artwork (2009)

Artwork (2009)

As músicas do álbum se encaixam em duas temáticas principais, sendo eles, como afirmou Bert McCracken para a revista Alternative Press (outubro de 2008, edição 243, p. 38), “vir a enfrentar o quanto você se odeia” e o conceito de mortalidade. Além de apresentar reflexões tão pessoais e revelar sentimentos que, em determinadas horas, soam estar “presos” dentro da pessoa durante muito tempo e sai como uma explosão.

 
É exatamente assim que o álbum começa. A forte BLOOD ON MY HANDS apresenta um sentimento de raiva e vingança. O som cru, pesado e barulhento – que marca todo o álbum e foi um dos principais motivos para a escolha do produtor Matt Squire, ao invés de John Feldman, que havia produzido todos os três álbuns anteriores da banda – se baseia bastante em uma linha de baixo de Jeph “Jepha” Howard, levado com a bateria de Dan Whitesides. O forte refrão, criado para fazer os fãs gritarem juntos a cada show, surge para engrossar essas características do som. Algo interessante é analisar a dualidade que a letra assume. Em um primeiro momento, a música pode ser interpretada como uma pessoa que tem algum distúrbio que o tira de uma consciência (podendo ser até mesmo o uso de drogas/álcool) e que o faz machucar esse possível interlocutor. Contudo, no momento em que Bert McCracken canta “Straight from you eyes/It’s barely me, beautifully so disfigured/This other side that you can’t see,/Just praying you won’t remember”, abre a possibilidade de que, na realidade, a pessoa a quem ele está fazendo mal é ele mesmo.

Não é por acaso que a principal temática do álbum trata sobre “enfrentar o quanto você se odeia”. A cada canção, a banda mostra lados bastante escondidos de si. EMPTY WITH YOU é outro exemplo claro disso. O interlocutor se revela claramente incomodado pela situação que ele passa, por uma possível falta de sanidade que o atinge. Esse incômodo transita por uma fina linha que separa a possível insanidade e o ódio de si mesmo, que piora pelo fato de ele mesmo não fazer nada para mudar essa situação, que lidera para o próprio título da música. “You could be empty/and I can be right here empty with you/Or you could be hollow/and I can be right here hollow with you/If you want to say goodbye to everything/I could say goodbye too/I can be right here empty with you”.

Talvez essa inação que o personagem se encontre em Empty With You se reflita também na canção seguinte. Com uma letra que parece uma bronca que um personagem dá em seu interlocutor, BORN TO QUIT parece uma conversa com o espelho. Dentro da temática do álbum, parece um questionamento, uma possibilidade de crescimento que o autor da canção enfrenta. Talvez este seja o momento em que ele resolve enfrentar seus demônios. E essa batalha ele encara no refrão, em que seu demônio o desafia, em um sinal de possível confiança de que a pessoa irá sair daquela situação: “Sharpen up your teeth/Your dreams are more than worth defending/In a fight that’s never ending/Go on, go ahead and prove me wrong”. Mesmo abatido, ele não aceita desistir dessa luta e mesmo lutando contra si mesmo, torna-se a motivação para ir à luta. O incentivo a provar que ele está errado.

E ir à luta é o que o personagem promete em KISSING YOU GOODBYE. Ao reafirmar que aquele não é um momento de abandono à outra pessoa, é reafirmar que pretende lutar pelo que tem. A canção começa com piano e voz, introduzindo um tom de confissão, de uma conversa íntima e bastante pessoal. A música cresce para atingir um tom mais forte e toca a idéia de perda, de um lado pode ser a perda de uma pessoa amada ou, até mesmo, a perda de si mesmo.

Mas, a perda surge de todas as direções, pois ao perder essa pessoa amada, a personagem deste álbum também se perde. E SOLD MY SOUL é isso! Bert canta sua decepção e como suas ações, que levaram à dor da outra pessoa, acabaram por levá-lo a um nada. E, para conseguir olhar para frente e, quem sabe, seguir a vida com essa pessoa amada, ele propõe um recomeço, vendendo sua alma para se livrar de uma culpa. É interessante perceber a forma depreciativa como esta canção é composta, pois Bert canta que ele é um verme, enquanto a pessoa amada, uma santa. O que mostra um desbalanço grande na forma como a relação era estruturada, sendo um possível motivo para terem chegado neste ponto. “Sold my life to bring the rain,/maybe to wash me clean./Sold my soul to stop the pain,/hoping you’d set me free./All your fear, all your shame./You know that you can lay it all on me.” A música, que começa bastante forte e intensa, termina com um piano melancólico e Bert balbuciando algumas palavras indecifráveis.

E, em WATERED DOWN, este mesmo interlocutor admite deixar algo para trás. Ele mostra claramente que é impossível se agarrar a algo com as mãos quebradas, que é necessário ter uma base sólida para conseguir continuar sua vida. É interessante a forma como ele demonstra que “a beleza passou” e ele deve “encarar a realidade” no início desta canção, que leva ao refrão, em que ele afirma que não faz diferença se deixa para trás. “In my eyes, coarse and jaded,/It’s no surprise the lights have faded/I’ll always walk away/You’ll always hear me say I don’t need this“.

ON THE CROSS vem logo em seguida, para demonstrar a descrença na salvação. Dentro da realidade do álbum, esta música pode indicar tanto para o conceito de mortalidade que, não importa o que você faça, nada poderá apagar os erros cometidos, assim como no conceito de “vir a enfrentar o quanto você se odeia”, pois você é o único culpado do que dá errado em sua vida.

COME UNDONE é uma expressão que pode significar tanto algo que não dá certo ou, então, uma pessoa que se perde e se desespera. Este é o título da canção seguinte do álbum, que mostra o ataque para chegar a um possível fim. E, dessa forma, Bert propõe um final. Será este o final que eles esperam? Nunca saberemos isso, mas ao certo, ele diz ser “o fim que você merecerá”.

E com o questionamento sobre “o fim”, lembramos do conceito de mortalidade. E é aí que entra MEANT TO DIE, uma referência basatante clara a abusos de substâncias e o quanto isso quase leva o personagem à morte. Frases que dizem que isto (que podem ser drogas) “sugou a vida de dentro de mim”, são representações bastante fortes de que, o que foi que aconteceu, causou sérios problemas e por pouco não teve conseqüências definitivas na vida de nosso personagem. “So baby, I took a little too much./Maybe you sucked the life right out of me./I should have let you know I never meant to go./Sure I lost my mind, but I never really meant to die.” Contudo, estas linhas podem muito bem se referir a um relacionamento que quase o levou ao fim, seja este relacionamento, desenvolvido com as drogas, como uma relação amorosa, ou mesmo um relacionamento com um membro da banda.

E o que mais pode falar de uma relação problemática do que THE BEST OF ME? Que por mais que o personagem da canção fosse recebido de forma bastante agressiva pelo outro da relação, ele garante que nunca deu o máximo de si, o que ficou claro na relação e, lógico, piorou ainda mais. “I could forget how you had tried to get the best of me/You’ll never forget that you never got me!“. E esta é a forma que nos leva ao encerramento do álbum…

Um álbum tão intenso, não poderia fazer diferente em sua última canção. MEN ARE ALL THE SAME não poderia ser melhor. A música começa com muita força e fazendo um simples questionamento: “Always safe to know what is good for taking blood stains from your clothes.” Esta frase pode parecer fora de contexto, mas se a lervarmos ao pé da letra, interpretando de acordo com a temárica de “odiar-se”, é bastante claro que o ódio acaba por se tornar físico, seja a pessoa que se corta, que toma uma overdose de um remédio ou, então, que tenta se limpar com tanta força para “tirar a sujeira” que acaba por se machucar. Da mesma forma, de uma forma metafórica, é importante saber como remover as manchas de sangue de suas roupas, pode ser uma forma de deixar o passado para trás e não deixar que ele continue o tempo todo assombrando a pessoa.

As ações, ainda são levadas aos extremos, a personagem da música faz o questionamento: “Just what am I supposed to say?/And tell you why I turned out this way?/Don’t make me. Don’t make me.//If you love it, then let it go./And how I died, you’ll never know./Just don’t blame me. Don’t hate me.“. O que o levou a se odiar dessa forma, de considerar a morte? De levar às últimas conseqüências? Pode parecer frustrante chegar até esse ponto e não encontrar uma resposta. Mas, algo ajuda a indicar, a solidão que ele sente é mostrado claramente, podendo ser um dos motivos que o levem a ter um relacionamento tão instável consigo. Para ele é mais fácil “ir” (neste caso, provavelmente o suicídio), pois está sozinho no mundo. Não haverá quem sinta sua falta e/ou chore sua perda. É nesta hora que ele revela não acreditar no que é seguro, demonstrando que um grande trauma o atingiu, que o mundo não foi fácil com ele o machucou muito. E a parte que dá o título da canção, é o que diz: “Nothing safe feels real./Waiting here to die./Just hoping I reveal. There’s something./Picking up my brains./You can tell your mom that men are all the same“. Pode parecer bastante derrotista, mas na hora que ele diz que MEN ARE ALL THE SAME, ele demonstra não confiar na humanidade e que não acredita que uma mudança pode trazer um bom resultado. A música, neste tempo todo é construída sobre uma base de uma bateria e baixo bastante forte, com a guitarra dando um pequeno complemento. E, neste momento, Bert recupera o refrão de KISSING YOU GOODBYE. Além de dar uma unidade ainda mais forte ao álbum, ao interligar as duas canções, ele também reafirma que vai à luta e não vai abandonar, por mais que todos sempre disseram que ele nunca conseguiria (sobreviver) sozinho. Ele encara isso como o desafio de sua vida e compra esta briga. Por mais que seja mais fácil desistir, ele continuará lutando. “Nowhere to go. I’m not leaving. I’m not going./I’m not kissing you good bye. On my own./I’m nothing. Just bleeding./I’m not kissing you good bye./(You’ve always been on your own,/You’ll never make it alone)“.

Dessa forma, o álbum termina e, claramente, já encontramos uma diferença bastante latente dos trabalhos anteriores. A forma como lidam com os sentimentos nas músicas e a sonoridade que eles constróem para passar aquilo que querem.

Again, the big difference is the “maturity” found in the writing and the slick, refined feel of the songs themselves. These songs don’t have any extraneous parts, awkward sections or filler – instead they’re streamlined and crafted to make every moment count.

(Trey Spencer, staff review no Sputinkmusic)

ARTWORK, a palavra, é o resultado de uma produção artística. ARTWORK, o álbum, é o resultado do trabalho de uma banda em crise e que soube se reinventar e atingiu o melhor trabalho de sua carreira. Com muita sinceridade e sem medo de encarar seus problemas de frente.

Bert McCracken ao vivo com a banda (foto: www.myspace.com/theused)

Bert McCracken ao vivo com a banda (foto: http://www.myspace.com/theused)

http://theused.net/
http://soundcloud.com/theusedband
http://www.facebook.com/TheUsed/

~ por Fábio Gianesi em abril 13, 2012.

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