Pontos de vista

Eu tenho uma paixão nada secreta por versões de músicas. Acho interessante ver como outros artistas interpretam determinadas canções. Recentemente, inspirado pelo texto da minha amiga Thais Kuzman (no site Colherada Cultural) sobre regravações interessantes de artistas, resolvi explorar essas músicas que tanto me atraem.

Muitos artistas escolhem músicas bastante inusitadas para fazer covers e versões, o que acaba mostrando, também, as diferentes influências em suas carreiras. Por exemplo, é difícil imaginar uma banda que mistura Death Metal, Metalcore e Prog Metal (Between the Buried and Me) tocando covers como Counting Crows (Colorblind) e Blind Melon (Change). Nestes dois casos, a banda não “transformou” as músicas para se adequar ao estilo da banda. Mas, eles trouxeram uma nova interpretação às canções, mostrando toda a qualidade de seus músicos.

Com isso tudo dito, eu apresento algumas das versões de músicas que eu gosto. Já aviso que este é um post que deverá ter novas partes pois, ao começar a escrevê-lo, reparei que deixei muita coisa boa de fora! Então, vejam algumas das versões que recomendo:

Johnny Cash – Hurt
Versão original: Nine Inch Nails

Johnny Cash expõe suas dores em Hurt, um dos últimos singles de sua carreira.

Johnny Cash expõe suas dores em “Hurt”, um dos últimos singles de sua carreira.

Esta canção foi uma das últimas gravações deste grande artista country, presente no último álbum que lançou em vida. Hurt, originalmente do Nine Inch Nails, ganha bastante força na voz de Cash. É curioso notar como a letra – que faz referências a dor, uso de drogas e à perda de pessoas queridas –, uma das mais fortes letra de Trent Reznor, se encaixa perfeitamente à vida de Cash. Dessa forma, o artista conseguiu interpretar a canção de uma forma muito pessoal, conseguindo até mesmo apropriar-se dela. Hurt também tem um vídeo-clipe, com tomadas de Cash tocando a música na casa em que viveu seus últimos 30 anos, além de imagens de arquivo de toda a vida do artista.

Trent Reznor tornou-se um grande fã da versão que Cash fez de sua música e, até mesmo, comentou que:

I pop the video in, and wow… Tears welling, silence, goose-bumps… Wow. [I felt like] I just lost my girlfriend, because that song isn’t mine anymore… It really made me think about how powerful music is as a medium and art form. I wrote some words and music in my bedroom as a way of staying sane, about a bleak and desperate place I was in, totally isolated and alone. [Somehow] that winds up reinterpreted by a music legend from a radically different era/genre and still retains sincerity and meaning — different, but every bit as pure.

(Alternative Press, nº 194. Setembro de 2004)

Punk Goes 80s

Punk Goes 80’s

Punk Goes…

Uma fonte de ótimas versões é, sem dúvida alguma, a série Punk Goes…, da gravadora Fearless Records. Nesta série, bandas de gêneros ligados ao punk (em sua maioria pop-punk, post-hardcore e alternative rock) gravam músicas de artistas de algum tema específico. Duas das minhas versões favoritas se encontram no álbum Punk Goes 80’s.

Gatsbys American Dream – Just Like Heaven
Versão original: The Cure

Gatsbys American Dream escolheram a canção do The Cure para gravar na coletânea.

Quando eu vi pela primeira vez que o Gatsby’s gravaria Just Like Heaven, já tinha certeza que seria muito boa. Just Like Heaven é minha música favorita do The Cure e Gatsbys é uma das bandas mais interessantes que surgiu nos últimos anos. Essa combinação não tinha como dar errado.

A declaração de amor que Robert Smith escreveu para sua então namorada ganha ainda mais mistério e emoção com a bateria quebrada e as diversas camadas sonoras que a banda adicionou. A música original foi eleita commo uma das 50 melhores canções de amor de todos os tempos pela revista Entertainment Weekly e é uma das canções que mostra o lado alegre do cantor da banda.

Midtown – Your Love
Versão original: The Outfield

A banda, original de New Jersey, se separou em 2005. (Frances Roberts/The New York Times)

Midtown se separou em 2005, mas deixou uma boa impressão. (Frances Roberts/The New York Times)

Midtown é uma banda que sempre fez questão de mostrar sua grande influência de hard rock e rock clássico, entre suas canções pop-punks, buscando um diálogo entre os dois estilos. Para esta versão, o grupo procurou fazer o mesmo, mesclar seu estilo com um toque do pop-rock que marca a canção original, adaptando-a aos anos 2000.

A própria escolha da Your Love já é bastante interessante. The Outfield pode ser considerado um “one-hit-wonder”, pois dificilmente ouve-se falar de outra música da banda que não seja esta. Contudo, esta é uma canção com a cara dos anos 80, que esbarra um pouco no rock de arena que era extremamente popular na época. A letra fala sobre um homem que tem um caso enquanto sua namorada está de férias.

O mais interessante da versão do Midtown é que ela consegue ser fiel à versão original e ao som da banda. A introdução e o final da música, com teclado e bateria eletrônica dá um toque especial para este cover.

Talisman feat Jeff Scott Soto – Frozen
Versão original: Madonna

Frozen é considerada um marco na carreira de Madonna por diversos motivos. Primeiramente, a canção apresenta uma mudança radical para a cantora, com o uso de tons eletrônicos mais obscuros, arranjos de cordas e orquestrações com influência oriental e uma forma de cantar explorando tons antes desconhecidos da diva. A música também marca a transição da Material Girl para a Spiritual Woman.

A música ganha uma roupagem hard rock, na versão do Talisman. A banda explora o arranjo de orquestração da versão original por toda a canção e aplica sobre ela guitarras distorcidas e uma bateria com bastante força. A potente voz de Jeff Scott Soto surge então para coroar esta ótima versão.

Versão ao vivo, a qualidade do áudio não está 100%. Para ouvir a versão original, acesse este vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=iLmCobOyer8).

A canção também tem uma versão bastante interessante interpretada pelo músico francês Pascal Obispo com a canadense Natasha Saint-Pier.

The Ataris – The Boys of Summer
Versão original: Don Henley

The Ataris tocando em show de televisão na África do Sul (Divulgação)

The Ataris tocando em show de televisão na África do Sul (Divulgação)

Para muitos o nome Don Henley pode soar familiar, mas apenas isso. Ele é o baterista e vocalista do Eagles, que a partir de 1982 lançou uma carreira solo extremamente premiada. Seu maior hit solo é, sem dúvida, The Boys of Summer. Curiosamente, a versão do The Ataris também se tornou o single de maior sucesso da banda.

A música tem como sua principal temática a passagem dos anos. A transição da juventude, em direção ao que podemos chamar de “vida adulta” é marcada pela conservação de um relacionamento: “My Love for you Will still be strong, after the boys of Summer have gone”.

É interessante perceber como essa canção se encaixa na carreira do The Ataris e, também, no álbum So Long, Astoria (2003). O álbum apresenta uma banda amadurecendo, deixando um pouco para trás o pop-punk que trata sobre amor adolescente e diversão pura dos discos anteriores. A música-título So Long, Astoria (referência ao filme The Goonies, de 1985) mostra exatamente essa mudança, dizendo que a vida é tão boa quanto as memórias que fazemos dela (“life is/only/as good as the memories we make”) e mostrando uma vida de alegria.

Para mim, além de dar mais vida à música, The Ataris conseguiu fazer com que a canção tornasse “deles”, contextualizando dentro da carreira e do momento que a banda passava. O necessário para mostrar que uma grande canção pode ser eterna.

Chris Cornell – Billie Jean
Versão original: Michael Jackson

Chris Cornell dá nova vida ao clássico de Michael Jackson (

Chris Cornell dá nova vida ao clássico de Michael Jackson.

Outra versão que combina o grande artista com a grande música é a versão de Billie Jean de Chris Cornell. Ambos dispensam apresentação: uma das mais famosas canções de Michael Jackson, na voz do ex-vocalista do Soundgarden e do Audioslave.

A meu ver, Cornell deu uma identidade à canção, com sua voz única e um feel muito mais voltado ao blues. A música ganha muita emoção e força. A linha de baixo, que marca a versão original, é abandonada e a voz de Cornell dialoga com uma guitarra que me lembrou bastante a melancolia de Jimmy Page em Baby I’m Gonna Leave You.

Bluegrass Tribute

Recentemente, surgiram séries que fazem tributos “inusitados” a bandas de diversos estilos. String Quartets, Piano Versions e, um dos meus favoritos, Bluegrass tributes, são alguns deles. Deste último, dois em particular me chamaram bastante atenção: Strummin’ with the Devil: The Southern Side of Van Halen e Fade to Bluegrass: The Bluegrass Tribute to Metallica.

David Lee Roth with the John Jorgenson Bluegrass Band – Jump
Versão original: Van Halen

Jump é uma música que dispensa qualquer tipo de introdução. Um clássico da década do hard rock da década de 80, a introdução de teclado é, provavelmente, um dos riffs mais lembrados de todos os tempos.

O resultado ficou muito bom. A qualidade é inquestionável e os vocais de David Lee Roth, combinados com um arranjo de primeira, fazem desta versão, no mínimo curiosa. O álbum também conta com uma ótima versão de Eruption, tocada no banjo, para deixar qualquer guitarrista de boca aberta.

Iron Horse – Fuel
Versão original: Metallica

Devo admitir que Fuel está longe de ser uma das minhas músicas preferidas do Metallica e o mesmo acontece no álbum Fade to Bluegrass: The Bluegrass Tribute to Metallica (que chegou a ganhar um volume 2). A escolha de Fuel para comentar se deu, especialmente, porque a música acaba crescendo com esta versão bluegrass.

A canção original é bastante agressiva, pesada e rápida. E, curiosamente, seu tempo encaixa-se perfeitamente no som do bluegrass. Destaque para o belo Jam que a banda faz no meio da música.

The Cardigans – Iron Man
Versão original: Black Sabbath

A suave voz de Nina Persson traz nova dimensão a este clássico do heavy metal (DAVBAR Images, davbar.com)

A suave voz de Nina Persson traz nova dimensão a este clássico do heavy metal (DAVBAR Images, davbar.com)

A doce voz de Nina Persson cantando versos como “Planning his vengeance/That he will soon unfold/Now the time is here/For Iron Man to spread fear” soa até mesmo irônico. Transformar uma música sobre  um vilão vingativo, que é extremamente agressiva, em uma baladinha foi uma grande sacada do Cardigans.

O contraste entre a versão original e esta é tão grande que chega a parecer outra música. E isso que deixa tudo tão interessante. Para quem conheceu o Cardigans com seu grande sucesso, Lovefool, nunca imaginaria que eles poderiam ser influenciados por Black Sabbath. Ainda, o riff clássico de Iron Man, reconhecido a distância por qualquer roqueiro, ganha uma interpretação quase surf music nesta versão.

Israel Kamakawiwo’ole – Over the Rainbow/What a Wonderful World
Versões originais: Judy Garland/Louis Armstrong

Você com certeza já ouviu esta versão, em que o já falecido cantor Israel Kamakawiwo’ole interpreta estes dois clássicos da música mundial somente ao som de seu ukelele. Além de unir duas das mais belas canções escritas no século passado, a simplicidade do instrumental aliado à suave voz deste havaiano faz dela a trilha sonora perfeita para diversas situações.

A versão tornou-se um fenômeno cultural sem igual, sendo incorporada a diversos filmes como Encontro Marcado e Como se Fosse a Primeira Vez, e também programas de TV, como ER (Plantão Médico), Scrubs e Cold Case.

~ por Fábio Gianesi em outubro 26, 2009.

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