O fim é apenas o começo

J.R. Richards encara alguns fantasmas em A Beautiful End (foto: A. Barkwell)

J.R. Richards encara alguns fantasmas em A Beautiful End (foto: A. Barkwell)

Quando um membro de uma banda decide lançar um álbum solo, ele normalmente busca por um novo começo em sua carreira. Muitas vezes, a motivação que o artista tem para começar esse trabalho é distanciar-se um pouco do som que está acostumado a fazer e expressar-se de outra maneira.

As motivações para A Beautiful End, de J.R. Richards, vocalista do Dishwalla, certamente não foram essas. Como o principal compositor da banda, ele não se preocupou em distanciar-se do som que seu grupo faz, nem mesmo em buscar um novo começo para sua carreira. Como o próprio título do álbum diz, ele busca um final.

Dishwalla surgiu em 1994 em Santa Barbara, Califórnia, e estourou em todo o mundo com o single Counting Blue Cars, do álbum de estréia Pet Your Friends (1995). A banda lançou mais três álbuns de estúdio: And You Think You Know What Life’s About (1998), Opaline (2002) e Dishwalla (2005), além do ao vivo Live… Greetings from the Flow State (2003). Apesar de todos estes lançamentos serem muito bons e, em minha opinião, superiores ao álbum de estréia, nenhum deles alcançou o sucesso comercial do debut.

A Beautiful End

A Beautiful End

Em seu primeiro álbum solo, Richards liberta alguns de seus fantasmas e lida com perdas significativas.

A Beautiful End, a primeira música do álbum, lida diretamente com essa temática. A canção foi escrita após Richards tocar no funeral da filha de um amigo seu que faleceu de câncer aos 15 anos. Ele explica que ficou “impressionado no quanto ela afetou o mundo ainda tão jovem e levei as histórias que ouvi aquele dia”. Esse sentimento é muito bem representado em linhas que acabam por servir como um réquiem de uma bela vida e que tem uma dupla missão, tanto dar o tom que o álbum seguirá, como também passa a idéia que o fim é apenas o começo. A inconfundível voz de Richards começa bastante suave e cresce juntamente com o resto da melodia, chegando ao ápice durante o refrão, no qual ele exalta a importância da pessoa que se foi: “It’s a beautiful end to a beautiful life/a beautiful night to a beautiful day/its a beautiful end to a beautiful life/A beautiful soul gone this Day”.

J.R. liberta seus fantasmas em Ghost of Sorrow. Antes e durante o processo de composição do álbum, amigos e familiares do cantor faleceram e ele não conseguiu separar-se desses sentimentos. Para ele, a perda foi algo novo e a forma que ele achou para lidar foi escrevendo. “O fantasma em Ghost of Sorrow é aquela tristeza vindo me visitar à noite. Após estar face a face com ela, decidi que não mais a temeria”, explica Richards sobre a canção. Ao afirmar que o “fantasma da dor” o acompanha, mostra o primeiro passo para a recuperação e, quem sabe, até mesmo para a realização deste álbum. A canção se desenvolve em um crescente de emoções, começando devagar e chegando ao topo no fim, com uma frase de guitarra bem aguda, enquanto Richards faz vocalizações no fundo e termina com lágrimas. O ponto alto da letra, para mim, é quando ele se depara com essa vida sem a pessoa amada: “to live this lonely Road/is so hard to bare and hard to follow/hard to heal so hard to swallow/this love this only love will right the ghost/that’s passing through me here”.

O processo de cura é representado na bela Clearwater. Uma música composta no piano e que fala sobre a esperança que Richards tem que o mundo poderá se curar de toda a loucura que vive atualmente.

No álbum, também não podia faltar uma música que perpassasse a temática de amor. Never Forgotten é uma música de saudades, de um amor inesquecível, como o próprio título já diz. A canção se encaixaria perfeitamente na carreira do Dishwalla, mais especificamente entre os álbuns And You Think You Know What Life’s All About e Opaline. Nela, percebemos uma característica de algumas canções escritas por Richards que, mesmo sendo um sentimento ruim, ele o trata de uma forma positiva. Então, a saudades que ele sente, na realidade, é apresentada pelas lembranças boas de estar com essa pessoa amada.

A versão acima passa um sentimento diferente da versão do álbum. Recomendo conferir ambas.

Esperança também surge no álbum. The Far End of the Black foi inspirada exatamente pelo sentimento de que ele “finalmente estava vendo uma luz no fim do túnel”. Esta é outra canção que também lembra bastante Dishwalla, apesar de ela ter “ganhado vida” na interação de Richards com a banda que gravou o álbum.

A Beautiful End é um disco bastante homogêneo, com uma sonoridade única e bastante firme. Percebe-se a falta de uma segunda força criativa que trouxesse outras influências para o trabalho, como encontramos no Dishwalla com canções como Creeps in the Stone. Mas isso não compromete o disco de forma alguma. O álbum passa a ser um reflexo bastante fiel de um artista que se encontra em um momento difícil de assimilar e transpassa isso para suas composições, encontrando um porto seguro em suas canções.

Talvez, após este álbum, a perda não mais assombre Richards e, como um intenso processo, A Beautiful End tenha servido como um belo começo para que ele consiga trilhar sua vida em direção a um “beautiful end”.

http://www.myspace.com/vocaltrix
http://www.jrrichardsmusic.com

Créditos das entrevistas com J.R. Richards, AntiMusic.com.

~ por Fábio Gianesi em setembro 30, 2009.

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