De onde vêm as canções

•setembro 30, 2013 • Deixe um comentário
Brandon Boyd, vocalista e letrista do Incubus, no palco com sua banda  (foto: Justin Wysong/brandonboyd.me)

Brandon Boyd: experimentando com o pop, em contrapartida ao seu trabalho com o Incubus (foto: Justin Wysong/brandonboyd.me)

Expressão artística

A expressão artística é, muitas vezes, marcada por uma expressão pessoal daquele que a desenvolve. É bastante comum ver obras de artistas serem bastante influenciadas por questões como o ambiente no qual ele está inserido e/ou o momento pelo qual passa. Saber usar a criatividade para transformar a inquietude em arte é realmente um dom que, uma vez dominado, pode se expressar de diferentes maneiras.

Essa é, certamente, uma característica que faz um bom artista conseguir com que as pessoas se relacionem com suas obras, pois encontram uma resposta e expressão para algo que sentem e, provavelmente, não sabem explicar. E o bom artista é aquele que consegue traduzir estas expressões de forma universal para diferentes formas de arte.

Sei que este pode ser um ponto de discordância de muita gente, mas acredito que, por vezes, o que menos importa em uma obra é exatamente seu resultado final. Muitas vezes o processo que o autor realiza é o ponto principal e o que realmente está expresso no trabalho. Por isso, defendo que uma boa obra pode ser tanto uma canção, como uma obra plástica etc.

Como este é um blog sobre música, o foco desta análise será sobre uma obra musical. Contudo, esta introdução é de extrema importância para entendermos a pessoa por trás das canções que motivaram este texto.

Um artista em constante movimento

Brandon Boyd trabalhando em uma de suas telas (Reprodução/So the Echo/brandonboyd.me)

Brandon Boyd trabalhando em uma de suas telas (Reprodução/So the Echo/brandonboyd.me)

Brandon Boyd é o vocalista e um dos principais compositores da banda de rock Incubus. A banda conta com grandes músicos, que dominam não apenas seus instrumentos, mas também as sonoridades e possibilidades que as canções oferecem. Brandon não foge a esta regra, com uma voz bastante distinta e facilmente reconhecida, ele se adapta a diferentes estilos e consegue expressar diferentes sentimentos através de sua voz.

Contudo, Brandon não é um artista de apenas um talento. Além de vocalista e letrista da banda, ele também é familiarizado e toca diferentes instrumentos. Além da música, Boyd é artista visual e escritor, com dois livros que combinam suas ilutrações/gravuras com textos lançados e já tendo realizado uma exposição de obras visuais que recebeu criticas bastante positivas internacionalmente, ele é conhecido por combinar os mundos da música, arte e ativismo. Muitas referências visuais da banda, desde capas de álbum até artes e litografias especiais de colecionador, são desenvolvidas por Brandon.

Quando penso em Brandon Boyd, a primeira referência que vem a minha mente é “água”. Pode parecer bastante vago e amplo, mas acho bastante pertinente e abrangente, em se tratando do artista que ele é. Sempre muito sincero e transparente, Brandon é o tipo de artista que coloca seus sentimentos de forma bastante clara e aberta no que faz, algo bastante fácil de se notar nas músicas do Incubus. Mas, também, é bastante adaptável a qualquer meio no qual precise se expressar, assim como a água, que se molda de acordo com o ambiente em que está, para poder ocupar todos os espaços. E, logicamente, a referência não seria completa se não fosse mencionada sua paixão pelo oceano. Nativo da Califórnia, cresceu surfando nas águas do Pacífico e, certamente, ganhando inspiração a cada onda.

E é baseado nessa maleabilidade que Brandon desenvolveu sua carreira solo, seu primeiro álbum The Wild Trapeze e, também, seu novo projeto Sons of the Sea são ótimos exemplos de como o artista deixa fluir seus sentimentos para canções se moldarem às necessidades musicais no momento.

Expectativas

A primeira coisa que eu devo considerar, ao começar a escrever sobre o EP Compass, lançamento do projeto Sons of the Sea, do Brandon Boyd, é que eu não posso ser imparcial em relação a este trabalho. Como todo trabalho que algum membro do Incubus lança, eu já vou com uma expectativa alta e, possivelmente, com uma abertura maior em relação a o que posso esperar.

Logicamente, isso leva a possíveis “problemas”. A primeira audição que tive da estreia de Brandon como artista solo, The Wild Trapeze (2010), foi, para dizer o mínimo, decepcionante. Hoje é muito fácil entender o porquê dessa decepção inicial. O último álbum que o Incubus havia lançado foi o Light Grenades (2006). Nesse meio tempo, a banda passou pelo Brasil e lançou uma coletânea com 2 músicas novas e outras 4 “inéditas” (sobras de estúdio de álbuns passados).

No momento em que foi anunciado um material inédito de um dos principais membros e compositores da banda – que eu considero como a minha favorita –, obviamente que a expectativa era ter um “novo álbum do Incubus”, de certo modo. Contudo, o álbum está bem distante do som e, até mesmo, dos temas abordados normalmente nas música da banda. Analisando atualmente, o estranhamento era algo que deveria acontecer e, possivelmente, era a intenção do próprio Brandon ao lançar o material. Depois de familiarizar-me com The Wild Trapeze, passei a apreciá-lo muito mais e perceber o quanto ele representa a força e a hetereogenidade de Brandon como músico e compositor, mostrando um lado que dificilmente veríamos nos trabalhos de sua banda principal.

Com isso em mente, o lançamento do projeto Sons of the Sea veio cercado de muita expectativa e pude recebê-lo de forma muito mais positiva e aberta que o álbum de 2010 de Boyd.

Entendendo a carreira solo de Brandon Boyd

Vocalista e compositor se aventura em um novo projeto (foto: Justin Wysong em brandonboyd.me)

Brandon Boyd se aventura em um novo projeto (foto: Justin Wysong/brandonboyd.me)

O Incubus nunca foi uma banda de ficar parada e estagnada em um mesmo estilo musical. Um ponto que gera bastante crítica para alguns fãs da banda, mas que é algo que eu aprecio bastante, o fato de eles sempre fugirem do possível “lugar de conforto”. A cada trabalho lançado, a banda tende a pender para algum estilo diferente. Ouvir os álbuns do Incubus é observar mudanças. Cada um possui uma característica bem clara e, ao mesmo tempo, mantém algo que une todos eles em uma linha histórica. Esta é a característica principal da banda, constantemente mudar, sem perder personalidade.

Brandon é um do membros fundadores da banda e a principal força de composição das letras da banda. Por isso, é bastante pertinente pensar que seu primeiro trabalho solo teria alguma característica que lembrasse bastante o Incubus. Na época do lançamento, eu não conseguia ver qual seria a característica, por se tratar de um trabalho tão diverso de tudo o que já conhecia de Boyd, contudo atualmente (especialmente após ouvir o Compass EP) é bem claro que a ideologia por trás de como deve ser um álbum, especialmente em um contexto maior, pensando em uma carreira toda, é a maior lição que Brandon leva do Incubus para seu primeiro álbum solo.

The Wild Trapeze

A melhor forma de descrever as canções do primeiro álbum solo de Brandon é com a definição que ele mesmo fez na carta de apresentação do trabalho:

a guy in room surrounded by toys who has an undying enthusiasm for finding out what each toy does, and has been given full license to make as much noise as he pleases.” (“Boyd’s take on The Wild Trapeze”, carta que foi publicada, na época, no site da banda sobre o lançamento do álbum do vocalista)

As músicas em The Wild Trapeze são cruas e, musicalmente, bastante diretas. A primeira impressão que se tem dessas canções é, exatamente, de estarmos de frente de uma coleção de esboços, arranjados em forma de canções. Uma forma mais pura e, até mesmo, selvagem de colocar aquelas expressões e sentimentos no mundo. Até certo ponto, é uma busca da música por ela mesma, pela expressão artística que ela pode representar.

Muitos dos temas do álbum percorrem, exatamente, esse processo em que o músico se encontrava e a busca por esse resultado artístico que, possivelmente, seria o primeiro passo para uma nova forma de expressão artística.

A primeira música de trabalho do álbum, “Runaway Train”, mostra exatamente esse caminho. A letra fala que Brandon está no centro de um triângulo amoroso com o futuro e a calamidade e que, quanto mais ele tenta fugir, mais atraído por esse “trem desgovernado”. Considerando o momento pelo qual Brandon passava, é possível fazer uma referência exatamente com seu processo de criação artística. O futuro, a calamidade e Boyd são os elementos que formariam, exatamente essas canções. O futuro seria o objetivo vislumbrado por Brandon, o ponto focal para a realização de um novo trabalho; a calamidade viria ao perceber possíveis limitações, inseguranças e a fuga de sua área de conforto, pois, por mais que ele já tenha uma longa experiência em composição, esse processo sempre é dividido com o talento de seus parceiros de banda. Obviamente, Brandon sentiu-se intimidado e bastante desconfortável nesse processo, mas cada vez sentia-se melhor de estar nesse processo.

O processo criativo, Brandon defende, deve ser um processo de liberdade. É isso que encontramos em “A Night Without Cars”, uma música com uma referência clara ao mundo animal, que fala exatamente de libertar-se e aproveitar essa possibilidade. O título da música surge exatamente na proposta de retomar a cidade, com a liberdade da selva. “Picture this; a night without cars,/just hooves and long legs./The two of us are horned and proud,/the city is ours again.” Essa referência é ainda mais clara quando pensamos na realidade que cerca Brandon, de Calabasas, no condado de Los Angeles, um local conhecido por ter um trânsito caótico (a cidade californiana possui uma das maiores frotas de automóveis do mundo). Abandonar o carro e tomar a cidade novamente, é uma forma de liberdade que só poderia ser encontrada na natureza. E o artista defende exatamente isso, que o fardo que ele carrega é exatamente se libertar, encontrar outra saída, pois o que o prende é ele mesmo: “If there are no such things as walls,/you’re not a prisoner at all”.

Talvez a música que mais diretamente endereça essa busca de expressão artística no álbum, na minha opinião, é “Courage and Control”. A canção mostra, realmente, como o processo se desenvolve, do momento inicial de inquietude e, ao memo tempo, fascinação com o mundo em que se vive e como isso se transforma em arte. O grande desafio que Brandon então encontra é conseguir balancear esses barulhos em uma canção. A solução vem através dos elementos presentes no título. “It’s time to let your hair down/and give yourself permission/it takes courage and control/but you start by letting go.” Com este refrão, Brandon reaproxima-se dos dois grades pilares que ele mesmo escolheu para representar o álbum: o selvagem e o equilíbrio. Para você conseguir se libertar, precisa ter consciência e controle, é preciso, também, muita coragem, pois é necessário desapegar-se do que a sociedade impõe à pessoa (voltar às raízes da natureza) e equilibrar-se para não perder de vista seu objetivo (o desafio do trapezista, conseguir realizar as acrobacias sem perder o equilíbrio).

Fazer The Wild Trapeze foi uma experiência de busca, além de uma identidade artística, mas uma identidade pessoal, explorando dilemas a profundidade incrível, para conseguir evoluir. Pessoalmente e artisticamente.

Sons of the Sea – o projeto

Sons of the Sea é um projeto liderado por Boyd e o famoso produtor Brendan O’Brien, que já trabalha com o Incubus em seus últimos 3 álbuns de estúdio, além de renomados nomes como Pearl Jam, Soundgarden, Bruce Springsteen e Rage Against the Machine. Ambos decidiram se juntar para compor músicas depois de finalizar o último álbum do Incubus, If Not Now, When? (2011).

“[O álbum If Not Now, When?] foi diferente o suficiente que ficamos curiosos em ver o que aconteceria se nós nos juntássemos e realmente escrevessemos músicas juntos”, afirma Boyd em uma entrevista à revista Billboard. O resultado são músicas pop com muitas variações, tanto de sonoridades, como também de sentimentos, sempre com uma influência de rock.

Boyd foi responsável pelas letras e vocais, com O’Brien fazendo as guitarras, baixos e teclados. A bateria no álbum foi gravada por Josh Freese (que já trabalhou com nomes como DEVO, The Vandals, Guns n’ Roses e Sting, entre tantos outros). No álbum, Brandon preocupou-se em utilizar sua característica voz como mais um instrumento, criando camadas de sons e sonoridades variadas, indo além do tradicional vocal que esperaria-se de um trabalho “pop”.

Compass EP

Compass EP (2013)

Compass EP (2013)

O EP é uma prévia de um álbum que está sendo lançado neste mês (setembro de 2013). E ele serve como uma prévia para o que os fãs podem esperar de Sons of the Sea.

A primeira canção é “Space and Time”, com grande influência pop, uma música bastante alegre e animada. Um clima californiano conduz esta primeira canção, situando o artista dentro de sua realidade, enquanto fala sobre ter jogo de cintura para lidar com as situações de uma relação. Apesar de ser uma música bastante positiva, ela aborda sentimentos de desapego e como as pessoas ainda ficam ligadas ao passado. E, deste processo, encontrar o “tempo e espaço” para conseguir livrar-se deste estigma é o desafio proposto por Boyd. Talvez essa relflexão e proposta de desapego, apresentada na música, seja uma forma de interpretar a abordagem de Boyd para essas canções. Não apegar-se ao lugar seguro de composição e aprender outras formas de expressar-se dentro do que já está bastante acostumado a fazer. É interessante perceber como isso se reflete na própria canção, pois, apesar de fugir dos padrões tradicionais de uma música do Incubus, é possível encontrar momentos que dão coerência ao conjunto da sua obra. Depois do segundo refrão, a música tem uma ponte que apresenta uma drástica mudança de sonoridade, com um ritmo mais cadenciado e uma vocalização de Boyd, trazendo a memória interlúdios encontrada em canções do Incubus, para então retornar, novamente, ao clima mais alegre e à melodia principal.

Apesar de explorar áreas bastante diferentes em questões musicais e, até mesmo, na forma de composição das canções de Compass EP, Boyd mantém uma semelhança com seu último trabalho musical (o álbum “If Not Now, When?”, do Incubus, que possui produção de O’Brien), a temática. Claramente, são músicas que falam sobre relacionamentos. “Come Together” vem a confirmar exatamente isso. De uma forma um pouco mais direta, a música – que mantém o tom mais positivo, enquanto ainda demonstra algumas incertezas. A música mostra um certo jogo de sedução em que ambos parecem testar suas armas e se envolver com o outro. Mas, Brandon não tem medo de admitir suas fraquezas e, possivelmente, até uma “derrota” neste jogo (e o conceito de derrota vem a ser muito questionável pois, a derrota aos charmes e seduções do parceiro o levaria a seus braços) mostra um lado que ele nunca escondeu. Em todos os álbuns do Incubus, a partir de S.C.I.E.N.C.E. (1997), encontramos uma composição que mostre uma grande demonstração dos sentimentos de Boyd para com uma parceira. Poderíamos chamá-las de “canções de amor”, se uma das principais características não fossem, exatamente, a dissociação de uma representação tradicional de sentimentos. Brandon faz seu tributo à pessoa amada (?) abrindo-se de forma extremamente sincera e nada piegas. Canções como “Summer Romance (Anti-Gravity Love Song)“, “Stellar“, “Echo“, “Here In My Room” e “Dig” são alguns dos exemplos mais claros. O sentimento expresso, por vezes, chega a beirar a devoção. Em “Come Together“, Boyd retoma esta forma de composição, dando uma roupagem completamente diferente.  O refrão mostra o personagem completamente entregue aos encantos da outra pessoa, como podemos ver em “When I think that maybe I’ve seen too much/You come around and dammit! I’m out of touch./Now I see you, and I need you on repeat, all the time/How in the world did you get to be so fine?“. Essa ligação de Boyd com sua parceira chega a parecer como um vício, um envolvimento tão forte que ele não consegue ficar distante.

Esse envolvimento tão completo e, em momentos, excessivo faz uma grande referência à forma como Brandon se relaciona com sua arte. E, talvez, essa seja a conexão que tanto sentido faz com todo o contexto de sua carreira solo. O artista se relaciona com sua obra (e seu processo de criação) como uma amante, envolvendo-se e esquecendo do mundo a sua volta, ele torna-se sua vida e, até mesmo, sua morte com a conclusão da obra. Contudo, a metáfora da morte, não é o fim, mas a passagem de uma vida para outra. “Where All the Songs Come From” é isso. Uma música que se destaca das duas anteriores no EP, com uma sonoridade mais melancólica (que em horas parece ter uma certa influência de bossa nova), ela explora exatamente esse processo. O próprio título já faz questão de ser bem direto: “de onde todas as canções vêm”. Boyd mostra-se muito mais confortável neste processo de composição do que em “The Wild Trapeze“, sabendo já de suas limitações e, também, já tendo enfrentado suas inseguranças, ele encara de frente esse desafio, admitindo que está lá por escolha própria e reconhecendo sua característica de demonstrar os sentimentos abertamente. E ele admite que é exatamente onde deve estar, pois é de onde vêm suas canções. Talvez um dos trechos da canção que mais demonstre esse amadurecimento e nova consciência de composição de Brandon é “On the way/If I stumble and bleed a bit/Remember half the fun is/Just being on the run, ya know“. Claramente, o processo de composição deste álbum foi algo muito mais proveitoso para Brandon, que já reconhece que, mesmo sofrendo neste meio, é o momento que deve ser aproveitado.

E, falar do processo é essencial para introduzir a última canção do EP. Diferentemente de seu primeiro trabalho solo, em Sons of the Sea, Brandon divide os créditos com Brendan O’Brien, o que pode ser notado claramente nos arranjos de todas as canções. Talvez, “Lady Black” seja a que tenha algumas características mais evidentes do trabalho deste sensacional produtor. Responsável pela composição instrumental, Brendan fez questão de utilizar a voz de Boyd como um dos mais potentes instrumentos do EP. A introdução desta canção, com diversas camadas vocais, além de ressaltar o grande talento do vocalista, também mostra a visibilidade do produtor de saber usar um de seus melhores recursos. A música é, talvez, a que mais possa se aproximar da sonoridade do Incubus, o que faz bastante sentido, contando que a música faz referência a algo que não está presente no momento atual do artista. E é de extrema importância ter essa consciência de a canção se passa em outro “espaço e tempo” do que ele se encontra. O começo da letra serve exatamente para localizá-lo dentro da realidade que ele apresentará: “In New York (…) When I was young“. A história que Brandon conta pode não ter acontecido literalmente (de ele ter uma paixão e uma conexão com uma garota em Nova York que, após uma noite de grande intimidade, desapareceu), por isso é importante que ele faça essa distinção da realidade atual. Nova York, que pode ser muito mais identificada no inconsciente como uma “selva de pedras”, acaba servindo como uma antítese à Califórnia, do clima praiano e veraneio que a musicalidade das primeiras canções do álbum demonstram. Como no início de um conto de fadas – em que o autor dissocia qualquer realidade utilizando referências como “era uma vez, em um reino distante” – Brandon também estabelece um espaço/tempo fora da realidade dele, para poder contar essa história. A referência aos contos de fadas são, também, bastante pertinentes, já que ele se relaciona com um ser misterioso (a quem ele se refere como “Lady Black“), muito mais apegado às sensações de estar com ela do que a pessoa em si. E isso, talvez, seja uma forma de ele olhar a forma como sempre se relacionou às artes. Uma forma tão intensa, tão apaixonada que, quando aquele processo artístico terminava (que ele apresenta na letra como “uma noite de diversão com a Lady Black”), ele se sentia perdido e abandonado. Aquela amante que o acompanhara por uma experiência tão intensa, havia desaparecido. Mas, o processo artístico tende a se repetir, como o refrão da música dá a entender, mostrando que as inseguranças e questionamentos tendem a voltar a cada novo “flerte” que ele tem com uma nova obra:

Your smile seems so familiar
Like maybe we’d met before
If we had, girl, I was a fool to forget.
The deep end sounds inviting
And she s already in
Should I stay dry?
Or should I get wet?
Do I hang on?
Or should I let go?
Should I let go?

De onde vêm as canções?

Brandon Boyd

Brandon leva uma vida marcada por criatividade e autoexpressão (Divulgação)

Talvez o melhor encerramento para este texto é, exatamente, questionar a afirmação que Boyd faz no álbum e, claramente o responde. De onde vêm as canções?

Obviamente, Brandon é apaixonado pela arte e, especialmente, por fazer arte. E as canções vêm exatamente dessa paixão inigualável. O amor do artista é exatamente o motor que o movimenta para poder, constantemente, fazer arte e fazer amor. Em uma recente entrevista, Brandon resume essa paixão, ao ser questionado sobre o que o faz feliz, mostrando que

Ahhhh. Fluidity. Honesty. It sounds cliche ́ but I’ve really been learning the past 5 or 6 years that the more I just get out of the way and allow whatever the process is to flow through.

(Interview: Brandon Boyd – So the Echo. Entrevista para Tyler Curtis, do Nylon Guys)

E, dessa forma, como água, Brandon transita por meio das artes, adaptando-se ao terreno a sua volta para atingir seu objetivo final e mostrar, como um rio que corta vales e montanhas para chegar ao mar, que o mais importante, para ele, é o processo de criar essas obras. É a vida que vive nesse tempo.

Um refúgio de John Mayer

•setembro 27, 2012 • 2 Comentários

John Mayer, em foto de divulgação do álbum Born and Raised (2012), abraçou o estilo cowboy em todos os aspectos de sua vida. (Divulgação)

Grandes Canções, Grandes Composições

Uma grande canção pode se destacar por algum elemento em específico. Uma performance especial de algum dos músicos (ou todos os músicos) pode fazer uma música ser incrível e se sobressair na carreira do artista. Podemos usar como exemplo deste caso a música The Best of Times, do Dream Theater. Uma bela letra escrita pelo baterista Mike Portnoy sobre as lembranças de seu pai é acompanhada por uma guitarra incrível de John Petrucci, transformando a música em uma homenagem sensacional.

A letra pode ser um desses elementos que transforma a música em uma obra memorável. Podemos dividir as músicas que se destacam por suas letras de diversas maneiras, mas eu acho interessante dois formatos: canções que expressam sentimentos extremamente sinceros e músicas que contam grandes histórias. Dessa forma, podemos mostrar duas formas bastante opostas de representação, uma mais objetiva (uma história) e outra mais subjetiva (sentimentos).

No caso subjetivo, vem a minha mente dois exemplos de canções que considero se destacar por expressar sentimentos e os expor de forma incrivelmente sincera. Joni Mitchel em seu álbum Blue (de 1971) colocou para fora seu coração, abrindo suas decepções e dores e, com isso, criando pérolas como A Case of You, uma de suas canções mais sinceras e mais bem-conhecidas. Outro exemplo é do cultuado artista Jeff Buckley, jovem cantor que faleceu na década de 90 tendo apenas um álbum lançado, o sensacional Grace (de 1994). O disco possui canções extremamente sinceras combinadas com interpretações sensacionais, nas quais ele toca e canta com os sentimentos na ponta dos dedos e na sua distinta voz, como a bela Forget Her.

Como exemplo de canções mais “objetivas”, como cito nos parágrafos anteriores, que se tornaram ícones, podemos citar dois clássicos, que contam uma grande história e, mesmo sendo longas (fugindo dos padrões da música pop, de possuir um tamanho médio de cerda de 3-4 minutos, com refrões e métricas simples), conseguiram cativar o público e se tornarem sucesso. Faroeste Caboclo (1978/1987) da Legião Urbana que, mesmo tendo 168 versos e mais de 9 minutos de duração, sempre recebeu rotação em rádios e, nos shows, era acompanhada do começo ao fim pelo público. E Hurricane (1975), de Bob Dylan. A canção de protesto que retrata e denuncia atos de racismo que foram cometidos contra Rubin “Hurricane” Carter, um boxeador negro que havia sido erroneamente condenado por assassinato em duas ocasiões.

O que ambas canções apresentam em comum: uma narrativa de uma grande história, contada do princípio ao fim, com bastante detalhes. São músicas clássicas, escritas por grandes compositores, que são marcos do rock.

John Mayer
Walt Grace’s Submarine Test, January 1967

Uma canção que consegue apresentar tanto uma história muito bem criada ao mesmo tempo que se destaca pela sinceridade de sua letra, sendo um desabafo do autor em relação a seus sentimentos, é “Walt Grace’s Submarine Test, January 1967”, do mais recente álbum de John Mayer, Born and Raised (2012).

O intuito deste artigo é analisar o porquê desta música conseguir transitar por estes dois pontos: a sinceridade de sentimentos e uma história bem criada, com seus fortes personagens e muito bem contada. Para isso, vamos conhecer um pouco sobre o autor, a realidade em que se encontrava e muitas das referências que encontramos na letra dessa música, tanto quanto no resto do álbum de John Mayer.

Introduzindo John Mayer

Battle Studies - Studio

John Mayer durante a gravação de Battle Studies (2009). (Divugação)

John Mayer é bastante conhecido por compor sempre canções extremamente sinceras, revelando seus sentimentos e emoções de forma bastante direta. Muitas vezes, é mal interpretado por escrever canções que falam abertamente de seus sentimentos e experiências. Ouvir um de seus álbuns é entender o que está se passando em sua vida, podemos perceber isso bastante claramente nos três mais recentes álbuns do artista: Continuum (2006), Battle Studies (2009) e Born and Raised (2012).

Com mais de 10 anos de carreira, John Mayer já se consolidou como um dos principais nomes do blues-rock e do pop-rock atualmente. Considerado um dos melhores guitarristas de sua geração, ele sempre busca se reinventar a cada álbum. Mas, John também é bastante conhecido por sua vida pessoal, seus relacionamentos com celebridades “high-profile” e, também, suas declarações polêmicas sobre assuntos diversos.

O álbum de 2009, Battle Studies, foi baseado bastante em experiências de John com relacionamentos problemáticos com personagens como a cantora Jessica Simpson e a atriz Jennifer Aniston. Neste período o cantor se tornou figura constante em tablóides e sites de fofoca, constantemente contestado por sua conduta em Hollywood e suas escolhas pessoais e amorosas.

No meio desta tempestade pessoal, dois momentos destacam-se como chave para entender melhor a crise pela qual Mayer passava.

O primeiro momento aconteceu em abril de 2010, em uma entrevista bastante controversa para a revista Playboy. O músico fez comentários explícitos sobre sua vida sexual com suas ex-namoradas famosas, misógenos e até mesmo, racistas. Este foi um prato cheio para todos aqueles que se alimentavam de seu momento difícil.

O segundo momento foi o lançamento da canção Dear John, de Taylor Swift. A cantora, considerada a atual queridinha da América, desabafa sobre um suposto relacionamento com Mayer após a colaboração de ambos na faixa Half of My Heart, do álbum Battle Studies. A letra de “Dear John” mostra um homem que joga “dark twisted games” com uma garota apaixonada e que possui uma “doentia necessidade de dar amor para, em seguida, tirá-lo”.

A repecursão da entrevista da Playboy e da música de Taylor foram os principais motivos que levaram John Mayer a abandonar a “cidade grande” (Nova York e, mais recentemente, Los Angeles) e se mudar para o interior – em uma pequena cidade de Montana – para fugir um pouco da atenção da mídia e dos holofotes.

É neste novo cenário rural e introspectivo que John compõe “Born and Raised”.

A Canção

“Walt Grace’s Submarine Test, January 1967” começa com um leve dedilhado de um violão e um solo de trumpete, excepcionalmente executado por Chris Botti. Uma introdução que estabelece um tom melancólico e solitário para a canção, criando o clima ideal para a canção que segue. Em seguida, uma bateria com um ritmo de marcha tocada por Aaron Sterling alavanca a música para a entrada do vocal.

A letra desta canção conta uma história que Mayer criou de um homem (Walt Grace) que resolve criar um submarino e se jogar em uma aventura no mar. O personagem da canção, então, se isola do mundo, enquanto ouve as pessoas próximas a ele dizerem que ele nunca conseguirá e o rotular como “louco” por tentar. Enfrentando tudo e todos, ele cria seu submarino e embarca na desejada jornada que tem como destino final o Japão (em Tóquio).

Walt Grace acaba por tornar-se uma lenda por seu feito de “sair em uma jornada de um submarino caseiro para uma só pessoa” (“he took a home-made fan-blade submarine ride”).

Esta música foge um pouco da tradicional linha de composição de John Mayer, visto que esta é uma das poucas canções dele que apresenta uma narrativa focada em um personagem.

A Jornada de Jonh Mayer e seu submarino

Apesar de, em nenhum momento, John Mayer fazer qualquer referência de que Walt Grace pode ser ele mesmo, há muitos indícios que fazem crer isso. Antes de gravar Born and Raised, John encontrava-se em um momento difícil de sua vida e procurou refugiar-se para poder criar uma obra que o libertaria. Naquele momento, o refugio significava sobrevivência. Assim como John, Walt Grace precisava dessa fuga da realidade, que por mais difícil que fosse, lhe traria a felicidade e o levaria para um novo mundo, que ele tanto almejava.

A vida solitária é algo com a qual John Mayer já estava acostumado (e que é uma constante do show business). Ele mostra um pouco de como é um “tradicional” dia em sua vida em um vídeo chamado “A Life in the Day”, no qual a câmera mostra, em sua maioria, o ponto de vista do artista durante todo o dia.

“A Life In The Day” from John Mayer on Vimeo.

Mesmo com toda essa solidão, é difícil do artista conseguir um momento “calmo”. Essa realidade torna-se uma fonte de contradição sem tamanho que, mesmo só, o artista dificilmente encontra paz. E, então, neste processo de “reclusão” que John Mayer se colocou, ele finalmente encontrou essa paz para repensar sua vida. Walt Grace também encontra, nesta sua jornada, este momento de silêncio, de contemplação e paz. Então, neste momento em que ele retorna à superfície em busca de ar, ele se depara com um belo céu.

É quase impossível não fazer uma relação deste céu de Walt Grace com o que John canta na canção 3×5, de seu primeiro álbum: “today skies are painted colors of a cowboy’s cliché”. Vivendo esta nova vida, John claramente tem uma visão diária do céu de cowboy de Montana, uma grande influência para a música que compõe.

A história de Walt Grace vai sendo concluída quando a narrativa mostra que Walt deixa de ser apenas uma pessoa com um plano maluco para se tornar um exemplo de coragem, uma “lenda”. Neste momento, a narrativa é voltada não mais a Walt, mas àqueles que antes estavam a sua volta.

Este trecho, que também serve para novamente conectar John com seu personagem, diz: “One evening, when weeks had passed since his leaving/The call she planned on receiving finally made it home/She accepted the news she never expected/The operator connected the call from Tokyo”. A referência a Tóquio é reveladora para aqueles que conhecem a apreciação que o compositor possui pela terra do sol nascente. Tóquio é o lugar preferido de John Mayer. Em seu álbum anterior, na canção “Who Says?“, ele volta a mencionar o país: “Who says I can’t get stoned? Plan a trip to Japan alone/doesn’t matter if I even go/Who says I can’t get stoned?”.  Mayer viajou para o Japão durante o processo de composição de Battle Studies em 2009 e a aventura foi devidamente registrado em video.

Um grande indício de que esta sua nova vida em Montana, longe das tentações e loucuras de Los Angeles, se tornou como uma viagem de submarino para John encontra-se na primeira canção do álbum Queen of California. Nela, ele canta que “Joni wrote Blue in her house by the sea/I got to believe there’s another color waiting on me/to set me free”. Esta referência à obra-prima de Joni Mitchell, o álbum Blue (que citei no começo do artigo e foi uma grande influência para John na composição de Born and Raised, como também em sua nova vida)  se encaixa bastante tanto na realidade de John, como de Walt Grace. Joni precisou da tranquilidade de sua casa na praia para poder escrever a obra que mudou os rumos de sua carreira e é, até hoje, considerado como um dos mais importantes e melhores álbuns de todos os tempos. John precisou de sua nova casa em Montana (e tudo o que essa mudança representa, não apenas o local) para criar sua obra “libertadora”. Walt Grace precisou se isolar em seu porão para construer o submarino que mudaria a sua vida.

O legado de Born and Raised

John Mayer - Born and Raised Studio

John Mayer no estúdio, durante a gravação de seu mais recente álbum. (Divulgação)

Não acredito que Born and Raised seja o álbum definitivo do John Mayer e que, até mesmo, seja a melhor obra que ele já produziu até o momento. Em minha opinião, tanto o Continuum (2006) quanto o Battle Studies (2009) são melhores e mais completos que esta obra. Contudo, o próprio John espera ainda encontrar “a cor que irá libertá-lo”, como o azul (blue) foi para Joni.

Voltando à comparação que fizemos entre John Mayer, Joni Mitchell e Walt Grance, nos três casos, podemos identificar que esse momento de reclusão e “desaparecimento” foi o ponto de mudança para a vida, moldando a pessoa/artista que seria conhecido. Joni, atualmente, é cultuada por ser uma grande compositora; Walt Grace se tornou uma lenda em sua cidade, sendo lembrado por seus amigos quando bebem, os mesmos que antes duvidaram que ele conseguiria completar essa jornada. Quanto ao John Mayer, somente o futuro poderá dizer se sua viagem de submarino teve o efeito esperado, marcando sua vida e obra.

Obrigado à minha amiga Carol Stevens, do John Mayer BR, pela ajuda final neste texto.

Despindo canções – O Melhor do Acústico MTV

•maio 3, 2012 • 2 Comentários

Os Acústicos MTV são normalmente considerados como uma forma de “recuperar” a carreira de artistas que estão “esquecidos” da grande mídia e público. De fato, muitos artistas tiveram novas oportunidades em suas carreiras depois de fazerem os shows desplugados para a Music Television. Contudo, eu vejo os acústicos como uma forma do artista entrar em contato com sua música de modo muito mais profundo e, talvez, até mesmo chegar a conhecê-la melhor. Ao se fazer um arranjo diferente para uma música, a primeira ação a ser tomada deve ser levar a música a sua origem, a sua base e, muitas vezes, é isso que encaramos nas versões acústicas.

Dessa forma, quando eu penso naqueles acústicos que eu mais gostei, já me vêem à cabeça os acústicos que têm como mote a  simplicidade, ao invés da grandiosidade. Aqueles acústicos que buscaram a essência de cada música, ao invés de incrementá-las com novos arranjos e instrumentos. Como músico, é interessante ver as canções despidas e levadas ao seu básico e, imagino que isso aconteça com os próprios artistas, de conhecer a canção novamente, como uma redescoberta.

Pearl Jam

Ano: 1992

Eddie Vedder colocando todas suas emoções em Black, no MTV Unplugged

Eddie Vedder colocando todas suas emoções em Black, no MTV Unplugged. (foto: Divulgação)

O ano era 1992 e Pearl Jam estava no auge, com o álbum TEN disparado nos charts e suas músicas com altíssima rotação nas rádios e televisões musicais de todo o planeta. O convite para fazer um acústico era uma questão de tempo e ele aconteceu. Contudo, como transpor toda a raiva e agressividade do grunge para este formato? Este não foi um problema para a banda, que mostrou que a raiva e a indignação são sentimentos muito fortes que podem ser expressados além das guitarras distorcidas e do peso que a banda traz para o palco. Os sentimentos foram mostrados de forma bastante viscerais e verdadeiros, como podemos ver na performance de Black que a banda fez no show.

Mas, eles não deixaram de lado a raiz da banda e fizeram, ainda assim, um show bastante enérgico e que teve espaço, até mesmo, para manifestações político-sociais do vocalista Eddie Vedder. Como podemos ver na sensacional performance de Porch do acústico, com Eddie Vedder subindo em seu banquinho e escrevendo “Pro-Choice” em seu braço (referente ao Movimento Pro-Choice, movimento para a legalização do aborto que estava em discussão na época nos EUA que defende a liberdade individual da mulher em escolher ter o filho ou não) e Jeff Ament subindo com seu baixolão no bumbo e batendo nos pratos da bateria. A banda não se deixou intimidar pelo clima “intimista” e “tranqüilo” que o Unplugged deveria ter e fez exatamente o que tanto me atrai neste formato, mostraram suas raízes e levaram sua música ao denominador mais básico, a emoção.

Dashboard Confessional

Ano: 2002

Chris Carrabba, o fundador do Dashboard Confessional (foto: www.shotmonster.com)

Chris Carrabba, o fundador do Dashboard Confessional (foto: http://www.shotmonster.com)

Falar em emoção é falar de Dashboard Confessional. Chega até mesmo a ser uma piada sem graça, pois por serem uma das principais bandas que surgiram no cenário emo nos EUA nos anos 2000, a emoção já está ligada diretamente à música deles. Contudo, o que faz o MTV Unplugged 2.0 ser excepcional vai muito além de eles serem uma boa banda. Primeiramente, até o momento do lançamento do álbum, a banda era basicamente acústica, com músicas tocadas no violão, baixo, bateria com um eventual piano, portanto, o acústico na época era a essência da banda. O próprio vocalista e fundador da banda, Chris Carrabba faz brincadeira com isso no começo do show, apresentando da seguinte forma:

Welcome to Dashboard Confessional Unplugged… which may sound a little redundant…

Mas, brincando ou não, isso contribuiu para que o espírito da banda fosse mostrado de forma mais pura, exatamente como um acústico deve ser. E, para isso, eles resolveram criar um clima mais intimista possível, com a gravação sendo feita em um estúdio localizado no prédio da MTV em Nova York, localizada no coração da cidade (na famosa Times Square), sem grandes produções e com um público selecionado dos principais fãs da banda. Isso possibilitou, realmente, um envolvimento ainda maior de toda a audiência, tornando-se um membro essencial da apresentação. Logo na primeira música, The Swiss Army Romance, podemos ver como a participação do público é importante para o sucesso do show.

A ideia de “despir” a banda de arranjos e trazer à tona a essência principal da música condiz bastante com a proposta do Dashboard Confessional e, até mesmo, do estilo. Trazer a emoção à tona sem máscaras e sem disfarces. Eles já haviam demonstrado isso em todos seus álbuns (como podemos lembrar na análise do So Impossible EP que fiz aqui mesmo no blog). Mas, fica-se a dúvida, se pegarmos uma música que já existe no seu estado mínimo, o que devemos fazer para o acústico? E foi exatamente nisso que a banda mostrou-se muito boa e o resultado que podemos conferir na versão de Hands Down. A música que, originalmente, era voz e violão, agora ganha a força e o ânimo de toda a banda, criando um sentimento de euforia e excitação, que se conecta diretamente à letra e à experiência que Chris Carrabba define como “the best day that I’ve ever had!”.

Alice in Chains

Ano: 1996

Layne Stanley e Jerry Cantrell tiveram ótimas performances no Unplugged MTV (foto: MTV)

Layne Stanley e Jerry Cantrell tiveram ótimas performances no Unplugged MTV (foto: Divulgação)

Emoção e sentimentos, é dessa forma que podemos descrever a performance de Layne Stanley no MTV Unplugged do Alice in Chains. As músicas da banda em versões acústicas se tornaram muito mais introspectivas e criaram um clima soturno. Todo esse clima é reforçado pela produção do palco e cenografia, com luzes em tons frios e velas. Complementado com ótimas performances de Stanley e, também, Jerry Cantrell, então temos uma apresentação memorável. Down in a Hole é um ótimo exemplo de como as canções da banda se adequaram ao formato acústico.

Novamente, encontramos um acústico que prima pela simplicidade. Ao apostar nessa forma, abre-se espaço para as performances individuais se sobressaírem. E foi exatamente o que aconteceu na apresentação da banda. Em Would?, Layne Stanley coloca para fora seus sentimentos de não pertencer e deslocamento deste mundo, no que é considerada uma de suas melhores performances desta canção. O violão e vocais impecáveis de Cantrell, com o baixo forte e preciso de Mike Inez em perfeita sintonia com a bateria de Sean Kinney são fundamentais para fazer com que, após executar a canção, Stanley diga que “this is the best show we’ve done in 3 years”.

Kiss

Ano: 1996

A ideia para o Unplugged MTV do Kiss surgiu após uma apresentação acústica em um encontro do fã-clube oficial da banda (foto: MTV)

A ideia para o Unplugged MTV do Kiss surgiu após uma apresentação acústica em um encontro do fã-clube oficial da banda (foto: Divulgação)

Quando uma grande banda como o Kiss anuncia que fará um Acústico MTV, deve-se esperar sempre algo de especial. A banda que sempre faz suas apresentações serem grandes espetáculos, com efeitos especiais/visuais e grandes performances. Neste acústico, eles foram na linha contrária: apenas a banda e o público (eles contaram com a  participação de um pianista e uma pequena orquestra para apresentar a nova canção Everytime I Look at You). Mas, como é o Kiss, sempre deve-se esperar alguma surpresa especial. E, no MTV Unplugged, foi a participação dos membros originais Peter Criss e Ace Frehley.

Mas, o que faz este show entrar na minha lista dos melhores acústicos da MTV não é necessariamente a presença da formação original da banda, depois de tanto tempo, mas o gosto que todos estavam de tocar ali. Podemos perceber isso pelas performances individuais, mas, chamo atenção para dois momentos em especial. A hora em que Peter Criss assume os vocais principais em Rock and Roll All Nite (por volta de 1:55 min do vídeo acima) e, especialmente, a performance de Paul Stanley em I Still Love You. Não sou o único a concordar que esta é, certamente, a melhor versão da música, cantada com muito sentimento e força, uma demonstração de toda a capacidade vocal de Paul, combinado com os solos impecáveis de Bruce Kulick.

Legião Urbana

Ano: 1992

Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, apostaram em manter a formação mínima para o Acústico MTV (foto: Divulgação)

Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, apostaram em manter a formação mínima para o Acústico MTV (foto: Divulgação)

Quando em divulgação para o álbum V (1991), a Legião Urbana foi oferecida fazer um acústico ao invés de um vídeo-clipe, eles aceitaram na hora. O Acústico MTV da Legião foi, durante muito tempo, considerado o primeiro projeto do tipo na MTV Brasil (foi gravado em 1992), apesar de terem sido gravados outros dois anteriormente (Marcelo Nova, 1990, piloto que não foi ao ar na época, e Barão Vermelho, 1991, que veio a ser lançado em 2007).  No caso da Legião, o Acústico passou na televisão no ano e a versão de Teatro dos Vampiros foi veiculada como “vídeo-clipe” da banda na programação da emissora. O álbum do Acústico MTV só foi lançado em 1999, após a morte de Renato Russo. Na época algumas canções fizeram parte da coletânea ao vivo Música para Acampamentos (1992): O Teatro dos Vampiros, Eu Sei, “Índios”, Mais do Mesmo e On the Way Home.

A apresentação que a Legião Urbana faz no Acústico foi considerada uma das melhores da série exatamente pela simplicidade. Renato Russo (violão e voz), Dado Villa-Lobos (violão) e Marcelo Bonfá (bateria/percussão) estão extremamente soltos, executando as músicas como para os amigos, em momentos até mesmo com os instrumentos levemente desafinados. A apresentação tem muitos erros, mas mostra uma banda extremamente feliz em tocar dessa maneira, provavelmente redescobrindo suas canções. E, também, mostra ótimas versões das músicas, como podemos destacar “Índios”, que Renato Russo descreve como “um fado grego” e é considerado um arranjo definitivo por fãs da banda.

O formato que eles escolheram gravar o especial também foi interessante. Como o foco era divulgar o novo álbum, como o próprio Renato Russo falou no começo do show:

A gente decidiu fazer o seguinte: tocar uma música de cada disco, algumas do disco novo e depois a gente tem algumas surpresas para vocês.

Dentre as citadas “surpresas” estão covers de artistas estrangeiros (como PIL, Joni Mitchel e Neil Young/Buffalo Springfield) e músicas como Faroeste Caboclo e Metal Contra as Nuvens, conhecidas por serem as duas mais longas canções da banda, sempre em uma versão adaptada para os dois violões e a bateria. Outra versão que ganhou uma bela roupagem foi Teatro dos Vampiros, do álbum mais recente da banda na época. Para o acústico, eles mudaram a introdução da música, usando um parte que havia sido composta para o álbum, mas não foi usada em nenhuma música.

Eric Clapton

Ano: 1992

Clapton, com seu violão Martin 000-42 que, em 2004 foi vendido em um leilão por US$ 791.500,00 (foto: Divulgação)

Clapton, com seu violão Martin 000-42 que, em 2004 foi vendido em um leilão por US$ 791.500,00 (foto: Divulgação)

Qualquer performance de um gênio da música como Eric Clapton já deve-se prestar atenção. Seus shows são sempre cheio de clássicos muito bem executados, com muita qualidade. No acústico não seria diferente! Apesar de o Unplugged fugir do padrão que digo gostar, de simplicidade musical (a banda dele era composta de 7 integrantes), considero um dos melhores acústicos já feitos pela MTV por um motivo: o blues é um estilo musical que começou acústico, com os trabalhadores das plantações de algodão no sul dos Estados Unidos tocando suas tristezas e indignações. Pegar um artista de blues/rock para tocar em um acústico é certeza de um retorno às raízes. E foi exatamente isso que aconteceu, como podemos ver na clássica Before You Accuse Me, clássico de Bo Diddley!

Eric Clapton selecionou diversos clássicos do Blues para tocar no acústico, interpretando artistas como Robert Johnson e Muddy Waters, além do já mencionado Bo Diddley. Mas, Clapton não esqueceu de algumas de suas próprias composições, apresentando versões acústicas de canções como Tears in Heaven, Layla e Old Love. E é nesta última que encontramos uma das mais espetaculares performances, tanto de Clapton como dos músicos de sua banda de apoio.

Bônus

Este post é para falar da série Acústico MTV (MTV Unplugged), mas não posso deixar de comentar duas apresentações acústicas que aconteceram em premiações da MTV que são sensacionais.

Bon Jovi

Músicas: Livin’ on a Prayer & Wanted Dead or Alive
Premiação: MTV Video Music Awards
Ano: 1989

A banda iria se apresentar na premiação da MTV e resolveu fazer algo diferente. Jon Bon Jovi e Richie Sambora, cada um com um violão subiram e fizeram um medley das, que são dois dos maiores sucessos da banda. Esta performance é creditada como a inspiração final para a MTV criar a série Unplugged. Não há uma confirmação oficial para esta informação, contudo, é dito que os produtores da MTV já haviam pensado em produzir uma série de programas com as bandas tocando de forma acústica e que, após o sucesso e a resposta positiva desta apresentação da banda na premiação do ano de 89, decidiram começar a produzir os especiais.

Alanis Morissette

Música: Your House
Premiação: MTV Video Music Awards
Ano: 1996

Em 1995 e 96, o rock tinha um rosto e um nome. Alanis Morissette lançou seu álbum Jagged Little Pill (1995) e conquistou o mundo com seu jeito tranquilo e tímido e suas canções intensas, com temas que vão de frustrações com a vida, decepções amorosas e sua visão de um mundo apático a sua frente. Ela tornou-se a voz da geração e representou um novo respiro para a música nos anos 90, mostrando que tudo não havia morrido com o falecimento de Kurt Cobain e o declínio do grunge. O álbum possui uma música escondida, em que Alanis canta, a capella, sobre uma pessoa que vai na casa do amado, enquanto ele(a) não está, para sentir-se mais próximo dele(a). O(a) perfeito(a) stalker, sentindo o cheiro da pessoa amada, até se deparar com uma carta de amor de outro(a). A música era usada de encerramento dos shows da turnê, com Alanis cantando parte a capella e, então, sendo acompanhada por um violão para, então, terminar a música sem o acompanhamento do instrumento. Ela apresentou essa fantástica versão em que o violão torna-se a pessoa amada e sua presença some, junto da esperança da personagem da música, no VMA’s de 1996.

E para você? Quais foram os melhores Acústicos MTV em sua opinião?

Artwork – a saída para um momento de crise

•abril 13, 2012 • Deixe um comentário
A banda, com sua mais recente formação (foto: theused.net)

Dan Whitesides (bateria), Bert McCracken (vocal), Quinn Allman (guitarra) e Jepha (baixo), a mais formação da banda que gravou "Artwork" (foto: theused.net)

Para muitos artistas, momentos de crise são extremamente férteis para a criatividade. O resultado de um período como esse, além de uma obra de arte, também é uma forma de terapia para poder superar essa dificuldade. Foi exatamente isso que The Used enfrentou em 2008.

Branden Steineckert saiu do The Used e, atualmente, toca bateria no Rancid (foto: Vater Percussion /  http://www.vater.com/)

Branden Steineckert saiu do The Used e, atualmente, toca bateria no Rancid (foto: Vater Percussion / http://www.vater.com/)

 
Após a expulsão do baterista (e um dos fundadores da banda) Branden Steineckert, em 2006, a banda lançou o fraco álbum LIES FOR THE LIARS. Nele, a banda soa extremamente produzida, perdendo algumas características que encontramos nos dois primeiros álbuns de estúdio. Ao final da turnê em divulgação do álbum, Bert McCracken (vocalista) passou por uma cirurgia para remover um nódulo em uma de suas cordas vocais.

 
Passar por um momento tão conturbado certamente levou a banda a retomar o espírito que tinham na época do primeiro álbum. Todas essas dificuldades que eles enfrentaram nestes últimos tempos, formam as composições de ARTWORK (2009). Fato que eles mesmo não se preocuparam em esconder ou mesmo maquiar.

Artwork (2009)

Artwork (2009)

As músicas do álbum se encaixam em duas temáticas principais, sendo eles, como afirmou Bert McCracken para a revista Alternative Press (outubro de 2008, edição 243, p. 38), “vir a enfrentar o quanto você se odeia” e o conceito de mortalidade. Além de apresentar reflexões tão pessoais e revelar sentimentos que, em determinadas horas, soam estar “presos” dentro da pessoa durante muito tempo e sai como uma explosão.

 
É exatamente assim que o álbum começa. A forte BLOOD ON MY HANDS apresenta um sentimento de raiva e vingança. O som cru, pesado e barulhento – que marca todo o álbum e foi um dos principais motivos para a escolha do produtor Matt Squire, ao invés de John Feldman, que havia produzido todos os três álbuns anteriores da banda – se baseia bastante em uma linha de baixo de Jeph “Jepha” Howard, levado com a bateria de Dan Whitesides. O forte refrão, criado para fazer os fãs gritarem juntos a cada show, surge para engrossar essas características do som. Algo interessante é analisar a dualidade que a letra assume. Em um primeiro momento, a música pode ser interpretada como uma pessoa que tem algum distúrbio que o tira de uma consciência (podendo ser até mesmo o uso de drogas/álcool) e que o faz machucar esse possível interlocutor. Contudo, no momento em que Bert McCracken canta “Straight from you eyes/It’s barely me, beautifully so disfigured/This other side that you can’t see,/Just praying you won’t remember”, abre a possibilidade de que, na realidade, a pessoa a quem ele está fazendo mal é ele mesmo.

Não é por acaso que a principal temática do álbum trata sobre “enfrentar o quanto você se odeia”. A cada canção, a banda mostra lados bastante escondidos de si. EMPTY WITH YOU é outro exemplo claro disso. O interlocutor se revela claramente incomodado pela situação que ele passa, por uma possível falta de sanidade que o atinge. Esse incômodo transita por uma fina linha que separa a possível insanidade e o ódio de si mesmo, que piora pelo fato de ele mesmo não fazer nada para mudar essa situação, que lidera para o próprio título da música. “You could be empty/and I can be right here empty with you/Or you could be hollow/and I can be right here hollow with you/If you want to say goodbye to everything/I could say goodbye too/I can be right here empty with you”.

Talvez essa inação que o personagem se encontre em Empty With You se reflita também na canção seguinte. Com uma letra que parece uma bronca que um personagem dá em seu interlocutor, BORN TO QUIT parece uma conversa com o espelho. Dentro da temática do álbum, parece um questionamento, uma possibilidade de crescimento que o autor da canção enfrenta. Talvez este seja o momento em que ele resolve enfrentar seus demônios. E essa batalha ele encara no refrão, em que seu demônio o desafia, em um sinal de possível confiança de que a pessoa irá sair daquela situação: “Sharpen up your teeth/Your dreams are more than worth defending/In a fight that’s never ending/Go on, go ahead and prove me wrong”. Mesmo abatido, ele não aceita desistir dessa luta e mesmo lutando contra si mesmo, torna-se a motivação para ir à luta. O incentivo a provar que ele está errado.

E ir à luta é o que o personagem promete em KISSING YOU GOODBYE. Ao reafirmar que aquele não é um momento de abandono à outra pessoa, é reafirmar que pretende lutar pelo que tem. A canção começa com piano e voz, introduzindo um tom de confissão, de uma conversa íntima e bastante pessoal. A música cresce para atingir um tom mais forte e toca a idéia de perda, de um lado pode ser a perda de uma pessoa amada ou, até mesmo, a perda de si mesmo.

Mas, a perda surge de todas as direções, pois ao perder essa pessoa amada, a personagem deste álbum também se perde. E SOLD MY SOUL é isso! Bert canta sua decepção e como suas ações, que levaram à dor da outra pessoa, acabaram por levá-lo a um nada. E, para conseguir olhar para frente e, quem sabe, seguir a vida com essa pessoa amada, ele propõe um recomeço, vendendo sua alma para se livrar de uma culpa. É interessante perceber a forma depreciativa como esta canção é composta, pois Bert canta que ele é um verme, enquanto a pessoa amada, uma santa. O que mostra um desbalanço grande na forma como a relação era estruturada, sendo um possível motivo para terem chegado neste ponto. “Sold my life to bring the rain,/maybe to wash me clean./Sold my soul to stop the pain,/hoping you’d set me free./All your fear, all your shame./You know that you can lay it all on me.” A música, que começa bastante forte e intensa, termina com um piano melancólico e Bert balbuciando algumas palavras indecifráveis.

E, em WATERED DOWN, este mesmo interlocutor admite deixar algo para trás. Ele mostra claramente que é impossível se agarrar a algo com as mãos quebradas, que é necessário ter uma base sólida para conseguir continuar sua vida. É interessante a forma como ele demonstra que “a beleza passou” e ele deve “encarar a realidade” no início desta canção, que leva ao refrão, em que ele afirma que não faz diferença se deixa para trás. “In my eyes, coarse and jaded,/It’s no surprise the lights have faded/I’ll always walk away/You’ll always hear me say I don’t need this“.

ON THE CROSS vem logo em seguida, para demonstrar a descrença na salvação. Dentro da realidade do álbum, esta música pode indicar tanto para o conceito de mortalidade que, não importa o que você faça, nada poderá apagar os erros cometidos, assim como no conceito de “vir a enfrentar o quanto você se odeia”, pois você é o único culpado do que dá errado em sua vida.

COME UNDONE é uma expressão que pode significar tanto algo que não dá certo ou, então, uma pessoa que se perde e se desespera. Este é o título da canção seguinte do álbum, que mostra o ataque para chegar a um possível fim. E, dessa forma, Bert propõe um final. Será este o final que eles esperam? Nunca saberemos isso, mas ao certo, ele diz ser “o fim que você merecerá”.

E com o questionamento sobre “o fim”, lembramos do conceito de mortalidade. E é aí que entra MEANT TO DIE, uma referência basatante clara a abusos de substâncias e o quanto isso quase leva o personagem à morte. Frases que dizem que isto (que podem ser drogas) “sugou a vida de dentro de mim”, são representações bastante fortes de que, o que foi que aconteceu, causou sérios problemas e por pouco não teve conseqüências definitivas na vida de nosso personagem. “So baby, I took a little too much./Maybe you sucked the life right out of me./I should have let you know I never meant to go./Sure I lost my mind, but I never really meant to die.” Contudo, estas linhas podem muito bem se referir a um relacionamento que quase o levou ao fim, seja este relacionamento, desenvolvido com as drogas, como uma relação amorosa, ou mesmo um relacionamento com um membro da banda.

E o que mais pode falar de uma relação problemática do que THE BEST OF ME? Que por mais que o personagem da canção fosse recebido de forma bastante agressiva pelo outro da relação, ele garante que nunca deu o máximo de si, o que ficou claro na relação e, lógico, piorou ainda mais. “I could forget how you had tried to get the best of me/You’ll never forget that you never got me!“. E esta é a forma que nos leva ao encerramento do álbum…

Um álbum tão intenso, não poderia fazer diferente em sua última canção. MEN ARE ALL THE SAME não poderia ser melhor. A música começa com muita força e fazendo um simples questionamento: “Always safe to know what is good for taking blood stains from your clothes.” Esta frase pode parecer fora de contexto, mas se a lervarmos ao pé da letra, interpretando de acordo com a temárica de “odiar-se”, é bastante claro que o ódio acaba por se tornar físico, seja a pessoa que se corta, que toma uma overdose de um remédio ou, então, que tenta se limpar com tanta força para “tirar a sujeira” que acaba por se machucar. Da mesma forma, de uma forma metafórica, é importante saber como remover as manchas de sangue de suas roupas, pode ser uma forma de deixar o passado para trás e não deixar que ele continue o tempo todo assombrando a pessoa.

As ações, ainda são levadas aos extremos, a personagem da música faz o questionamento: “Just what am I supposed to say?/And tell you why I turned out this way?/Don’t make me. Don’t make me.//If you love it, then let it go./And how I died, you’ll never know./Just don’t blame me. Don’t hate me.“. O que o levou a se odiar dessa forma, de considerar a morte? De levar às últimas conseqüências? Pode parecer frustrante chegar até esse ponto e não encontrar uma resposta. Mas, algo ajuda a indicar, a solidão que ele sente é mostrado claramente, podendo ser um dos motivos que o levem a ter um relacionamento tão instável consigo. Para ele é mais fácil “ir” (neste caso, provavelmente o suicídio), pois está sozinho no mundo. Não haverá quem sinta sua falta e/ou chore sua perda. É nesta hora que ele revela não acreditar no que é seguro, demonstrando que um grande trauma o atingiu, que o mundo não foi fácil com ele o machucou muito. E a parte que dá o título da canção, é o que diz: “Nothing safe feels real./Waiting here to die./Just hoping I reveal. There’s something./Picking up my brains./You can tell your mom that men are all the same“. Pode parecer bastante derrotista, mas na hora que ele diz que MEN ARE ALL THE SAME, ele demonstra não confiar na humanidade e que não acredita que uma mudança pode trazer um bom resultado. A música, neste tempo todo é construída sobre uma base de uma bateria e baixo bastante forte, com a guitarra dando um pequeno complemento. E, neste momento, Bert recupera o refrão de KISSING YOU GOODBYE. Além de dar uma unidade ainda mais forte ao álbum, ao interligar as duas canções, ele também reafirma que vai à luta e não vai abandonar, por mais que todos sempre disseram que ele nunca conseguiria (sobreviver) sozinho. Ele encara isso como o desafio de sua vida e compra esta briga. Por mais que seja mais fácil desistir, ele continuará lutando. “Nowhere to go. I’m not leaving. I’m not going./I’m not kissing you good bye. On my own./I’m nothing. Just bleeding./I’m not kissing you good bye./(You’ve always been on your own,/You’ll never make it alone)“.

Dessa forma, o álbum termina e, claramente, já encontramos uma diferença bastante latente dos trabalhos anteriores. A forma como lidam com os sentimentos nas músicas e a sonoridade que eles constróem para passar aquilo que querem.

Again, the big difference is the “maturity” found in the writing and the slick, refined feel of the songs themselves. These songs don’t have any extraneous parts, awkward sections or filler – instead they’re streamlined and crafted to make every moment count.

(Trey Spencer, staff review no Sputinkmusic)

ARTWORK, a palavra, é o resultado de uma produção artística. ARTWORK, o álbum, é o resultado do trabalho de uma banda em crise e que soube se reinventar e atingiu o melhor trabalho de sua carreira. Com muita sinceridade e sem medo de encarar seus problemas de frente.

Bert McCracken ao vivo com a banda (foto: www.myspace.com/theused)

Bert McCracken ao vivo com a banda (foto: http://www.myspace.com/theused)

http://theused.net/
http://soundcloud.com/theusedband
http://www.facebook.com/TheUsed/

Pontos de vista

•outubro 26, 2009 • Deixe um comentário

Eu tenho uma paixão nada secreta por versões de músicas. Acho interessante ver como outros artistas interpretam determinadas canções. Recentemente, inspirado pelo texto da minha amiga Thais Kuzman (no site Colherada Cultural) sobre regravações interessantes de artistas, resolvi explorar essas músicas que tanto me atraem.

Muitos artistas escolhem músicas bastante inusitadas para fazer covers e versões, o que acaba mostrando, também, as diferentes influências em suas carreiras. Por exemplo, é difícil imaginar uma banda que mistura Death Metal, Metalcore e Prog Metal (Between the Buried and Me) tocando covers como Counting Crows (Colorblind) e Blind Melon (Change). Nestes dois casos, a banda não “transformou” as músicas para se adequar ao estilo da banda. Mas, eles trouxeram uma nova interpretação às canções, mostrando toda a qualidade de seus músicos.

Com isso tudo dito, eu apresento algumas das versões de músicas que eu gosto. Já aviso que este é um post que deverá ter novas partes pois, ao começar a escrevê-lo, reparei que deixei muita coisa boa de fora! Então, vejam algumas das versões que recomendo:

Johnny Cash – Hurt
Versão original: Nine Inch Nails

Johnny Cash expõe suas dores em Hurt, um dos últimos singles de sua carreira.

Johnny Cash expõe suas dores em “Hurt”, um dos últimos singles de sua carreira.

Esta canção foi uma das últimas gravações deste grande artista country, presente no último álbum que lançou em vida. Hurt, originalmente do Nine Inch Nails, ganha bastante força na voz de Cash. É curioso notar como a letra – que faz referências a dor, uso de drogas e à perda de pessoas queridas –, uma das mais fortes letra de Trent Reznor, se encaixa perfeitamente à vida de Cash. Dessa forma, o artista conseguiu interpretar a canção de uma forma muito pessoal, conseguindo até mesmo apropriar-se dela. Hurt também tem um vídeo-clipe, com tomadas de Cash tocando a música na casa em que viveu seus últimos 30 anos, além de imagens de arquivo de toda a vida do artista.

Trent Reznor tornou-se um grande fã da versão que Cash fez de sua música e, até mesmo, comentou que:

I pop the video in, and wow… Tears welling, silence, goose-bumps… Wow. [I felt like] I just lost my girlfriend, because that song isn’t mine anymore… It really made me think about how powerful music is as a medium and art form. I wrote some words and music in my bedroom as a way of staying sane, about a bleak and desperate place I was in, totally isolated and alone. [Somehow] that winds up reinterpreted by a music legend from a radically different era/genre and still retains sincerity and meaning — different, but every bit as pure.

(Alternative Press, nº 194. Setembro de 2004)

Punk Goes 80s

Punk Goes 80’s

Punk Goes…

Uma fonte de ótimas versões é, sem dúvida alguma, a série Punk Goes…, da gravadora Fearless Records. Nesta série, bandas de gêneros ligados ao punk (em sua maioria pop-punk, post-hardcore e alternative rock) gravam músicas de artistas de algum tema específico. Duas das minhas versões favoritas se encontram no álbum Punk Goes 80’s.

Gatsbys American Dream – Just Like Heaven
Versão original: The Cure

Gatsbys American Dream escolheram a canção do The Cure para gravar na coletânea.

Quando eu vi pela primeira vez que o Gatsby’s gravaria Just Like Heaven, já tinha certeza que seria muito boa. Just Like Heaven é minha música favorita do The Cure e Gatsbys é uma das bandas mais interessantes que surgiu nos últimos anos. Essa combinação não tinha como dar errado.

A declaração de amor que Robert Smith escreveu para sua então namorada ganha ainda mais mistério e emoção com a bateria quebrada e as diversas camadas sonoras que a banda adicionou. A música original foi eleita commo uma das 50 melhores canções de amor de todos os tempos pela revista Entertainment Weekly e é uma das canções que mostra o lado alegre do cantor da banda.

Midtown – Your Love
Versão original: The Outfield

A banda, original de New Jersey, se separou em 2005. (Frances Roberts/The New York Times)

Midtown se separou em 2005, mas deixou uma boa impressão. (Frances Roberts/The New York Times)

Midtown é uma banda que sempre fez questão de mostrar sua grande influência de hard rock e rock clássico, entre suas canções pop-punks, buscando um diálogo entre os dois estilos. Para esta versão, o grupo procurou fazer o mesmo, mesclar seu estilo com um toque do pop-rock que marca a canção original, adaptando-a aos anos 2000.

A própria escolha da Your Love já é bastante interessante. The Outfield pode ser considerado um “one-hit-wonder”, pois dificilmente ouve-se falar de outra música da banda que não seja esta. Contudo, esta é uma canção com a cara dos anos 80, que esbarra um pouco no rock de arena que era extremamente popular na época. A letra fala sobre um homem que tem um caso enquanto sua namorada está de férias.

O mais interessante da versão do Midtown é que ela consegue ser fiel à versão original e ao som da banda. A introdução e o final da música, com teclado e bateria eletrônica dá um toque especial para este cover.

Talisman feat Jeff Scott Soto – Frozen
Versão original: Madonna

Frozen é considerada um marco na carreira de Madonna por diversos motivos. Primeiramente, a canção apresenta uma mudança radical para a cantora, com o uso de tons eletrônicos mais obscuros, arranjos de cordas e orquestrações com influência oriental e uma forma de cantar explorando tons antes desconhecidos da diva. A música também marca a transição da Material Girl para a Spiritual Woman.

A música ganha uma roupagem hard rock, na versão do Talisman. A banda explora o arranjo de orquestração da versão original por toda a canção e aplica sobre ela guitarras distorcidas e uma bateria com bastante força. A potente voz de Jeff Scott Soto surge então para coroar esta ótima versão.

Versão ao vivo, a qualidade do áudio não está 100%. Para ouvir a versão original, acesse este vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=iLmCobOyer8).

A canção também tem uma versão bastante interessante interpretada pelo músico francês Pascal Obispo com a canadense Natasha Saint-Pier.

The Ataris – The Boys of Summer
Versão original: Don Henley

The Ataris tocando em show de televisão na África do Sul (Divulgação)

The Ataris tocando em show de televisão na África do Sul (Divulgação)

Para muitos o nome Don Henley pode soar familiar, mas apenas isso. Ele é o baterista e vocalista do Eagles, que a partir de 1982 lançou uma carreira solo extremamente premiada. Seu maior hit solo é, sem dúvida, The Boys of Summer. Curiosamente, a versão do The Ataris também se tornou o single de maior sucesso da banda.

A música tem como sua principal temática a passagem dos anos. A transição da juventude, em direção ao que podemos chamar de “vida adulta” é marcada pela conservação de um relacionamento: “My Love for you Will still be strong, after the boys of Summer have gone”.

É interessante perceber como essa canção se encaixa na carreira do The Ataris e, também, no álbum So Long, Astoria (2003). O álbum apresenta uma banda amadurecendo, deixando um pouco para trás o pop-punk que trata sobre amor adolescente e diversão pura dos discos anteriores. A música-título So Long, Astoria (referência ao filme The Goonies, de 1985) mostra exatamente essa mudança, dizendo que a vida é tão boa quanto as memórias que fazemos dela (“life is/only/as good as the memories we make”) e mostrando uma vida de alegria.

Para mim, além de dar mais vida à música, The Ataris conseguiu fazer com que a canção tornasse “deles”, contextualizando dentro da carreira e do momento que a banda passava. O necessário para mostrar que uma grande canção pode ser eterna.

Chris Cornell – Billie Jean
Versão original: Michael Jackson

Chris Cornell dá nova vida ao clássico de Michael Jackson (

Chris Cornell dá nova vida ao clássico de Michael Jackson.

Outra versão que combina o grande artista com a grande música é a versão de Billie Jean de Chris Cornell. Ambos dispensam apresentação: uma das mais famosas canções de Michael Jackson, na voz do ex-vocalista do Soundgarden e do Audioslave.

A meu ver, Cornell deu uma identidade à canção, com sua voz única e um feel muito mais voltado ao blues. A música ganha muita emoção e força. A linha de baixo, que marca a versão original, é abandonada e a voz de Cornell dialoga com uma guitarra que me lembrou bastante a melancolia de Jimmy Page em Baby I’m Gonna Leave You.

Bluegrass Tribute

Recentemente, surgiram séries que fazem tributos “inusitados” a bandas de diversos estilos. String Quartets, Piano Versions e, um dos meus favoritos, Bluegrass tributes, são alguns deles. Deste último, dois em particular me chamaram bastante atenção: Strummin’ with the Devil: The Southern Side of Van Halen e Fade to Bluegrass: The Bluegrass Tribute to Metallica.

David Lee Roth with the John Jorgenson Bluegrass Band – Jump
Versão original: Van Halen

Jump é uma música que dispensa qualquer tipo de introdução. Um clássico da década do hard rock da década de 80, a introdução de teclado é, provavelmente, um dos riffs mais lembrados de todos os tempos.

O resultado ficou muito bom. A qualidade é inquestionável e os vocais de David Lee Roth, combinados com um arranjo de primeira, fazem desta versão, no mínimo curiosa. O álbum também conta com uma ótima versão de Eruption, tocada no banjo, para deixar qualquer guitarrista de boca aberta.

Iron Horse – Fuel
Versão original: Metallica

Devo admitir que Fuel está longe de ser uma das minhas músicas preferidas do Metallica e o mesmo acontece no álbum Fade to Bluegrass: The Bluegrass Tribute to Metallica (que chegou a ganhar um volume 2). A escolha de Fuel para comentar se deu, especialmente, porque a música acaba crescendo com esta versão bluegrass.

A canção original é bastante agressiva, pesada e rápida. E, curiosamente, seu tempo encaixa-se perfeitamente no som do bluegrass. Destaque para o belo Jam que a banda faz no meio da música.

The Cardigans – Iron Man
Versão original: Black Sabbath

A suave voz de Nina Persson traz nova dimensão a este clássico do heavy metal (DAVBAR Images, davbar.com)

A suave voz de Nina Persson traz nova dimensão a este clássico do heavy metal (DAVBAR Images, davbar.com)

A doce voz de Nina Persson cantando versos como “Planning his vengeance/That he will soon unfold/Now the time is here/For Iron Man to spread fear” soa até mesmo irônico. Transformar uma música sobre  um vilão vingativo, que é extremamente agressiva, em uma baladinha foi uma grande sacada do Cardigans.

O contraste entre a versão original e esta é tão grande que chega a parecer outra música. E isso que deixa tudo tão interessante. Para quem conheceu o Cardigans com seu grande sucesso, Lovefool, nunca imaginaria que eles poderiam ser influenciados por Black Sabbath. Ainda, o riff clássico de Iron Man, reconhecido a distância por qualquer roqueiro, ganha uma interpretação quase surf music nesta versão.

Israel Kamakawiwo’ole – Over the Rainbow/What a Wonderful World
Versões originais: Judy Garland/Louis Armstrong

Você com certeza já ouviu esta versão, em que o já falecido cantor Israel Kamakawiwo’ole interpreta estes dois clássicos da música mundial somente ao som de seu ukelele. Além de unir duas das mais belas canções escritas no século passado, a simplicidade do instrumental aliado à suave voz deste havaiano faz dela a trilha sonora perfeita para diversas situações.

A versão tornou-se um fenômeno cultural sem igual, sendo incorporada a diversos filmes como Encontro Marcado e Como se Fosse a Primeira Vez, e também programas de TV, como ER (Plantão Médico), Scrubs e Cold Case.

A arte de contar histórias

•outubro 9, 2009 • 1 Comentário
A formação atual da banda com Mike Marsh (bateria), Chris Carrabba (guitarra e vocal), Scott Schoenbeck (baixo) e John Lefler (guitarra).

A formação atual da banda com Mike Marsh (bateria), Chris Carrabba (guitarra e vocal), Scott Schoenbeck (baixo) e John Lefler (guitarra), em foto de 2006. (Divulgação)

Álbuns conceituais são aqueles cujas canções são unificadas por um tema. Na minha cabeça, surgem trabalhos como Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory, do Dream Theater, The Dark Side of the Moon e The Wall, do Pink Floyd, Seventh Son of a Seventh Son, do Iron, ou mesmo Mellon Collie and the Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins.

Pessoalmente, gosto muito de álbuns conceituais e da idéia de contar uma história, seja ela através de uma narrativa (como é o caso de Metropolis Pt. 2, The Wall e Seventh Son, dentre os citados acima) ou um conceito geral (Mellon Collie e Dark Side of the Moon). E isso é o que me atrai no breve, porém ótimo So Impossible EP, do Dashboard Confessional.

O grupo começou como um grupo acústico, liderado por Chris Carrabba (na época vocalista do Further Seems Forever), e acabou se tornando uma banda completa. So Impossible EP foi o terceiro lançamento do grupo e, através de quatro músicas, conta a história de um “date” em que o protagonista é mostrado desde sua preparação até o encontro em si.

So Impossible EP (2001)

So Impossible EP

Em apenas 14 minutos, a banda consegue mostrar diversos aspectos desse acontecimento de uma forma bem próxima ao protagonista e, especialmente, transmitindo bastante emoção. Um dos grandes trunfos de Chris Carrabba foi, exatamente, saber representar tão fortemente emoções e sentimentos através de suas músicas. E a simplicidade musical de So Impossible possibilita que as letras se destaquem ainda mais e tomem conta de todo o clima do EP.

A história começa com o protagonista desejando uma garota, pensando em como impressioná-la e fazer com que ela o note. Com apenas três breves estrofes, For You to Notice… é construída de uma forma bastante simples e Chris é direto ao cantar: “But for now I’ll look so longingly waiting/for you to want me/for you to need me/for you to notice me”.

O clima de flerte e romance é descrito em So Impossible, a canção título do EP e segunda parte desta história. A música começa com a garota mostrando que quer conhecê-lo melhor e sugere “agitar um encontro” entre dois amigos deles em uma festa. Acho muito interessante o Chris representar nas canções esse clima, com a garota inventando uma desculpa para encontrar com o garoto. O rapaz então responde, dizendo que espera que os amigos deles “se entendam” e que também quer conhecê-la melhor: “and maybe my friend/and your friend/will hit it off/or maybe we will!”.

Chega o grande dia e eles se preparam para a tão esperada festa. Remember to Breathe é o momento que antecede a explosão. Com todas as borboletas no estômago e nervosismos expressos. A expectativa de encontrar aquela pessoa que pode ser “the one”. A ansiedade adolescente que muitas vezes experimentamos quando estamos apaixonados é muito bem representada na hora em que fala: “I’m starting to panic/(Wait, wait)/Remember she asked you/Remember to breathe/And everything will be okay”. O mais interessante do desfecho dessa música (esses versos que acabei de apresentar) é que conseguimos até mesmo imaginar o rapaz se preparando e começando a surtar. Até que ele fala, para si mesmo, “calma, calma”.

“This is a song about the Best Day that I’ve ever had”. É dessa forma que Chris Carrabba costuma introduzir Hands Down, o desfecho desta história. Hands Down é uma expressão da língua inglesa que significa “sem dúvida” e é usada no contexto de que ele nunca esquecerá o dia maravilhoso que ele teve com a garota (“Hands down this is the best day I can ever remember”). Toda a excitação e expectativas que eles construíram durante o período anterior explodem em animação e muitas memórias: “My hopes are so high that your kiss might kill me/So won’t you kill me, so I die happy”.

Hands Down tornou-se uma das mais famosas (e, em grande parte, “fan-favorite”) da banda. Há três versões da música: esta que conta apenas com voz e violão; a versão do MTV Unplugged 2.0 (2002) que, mesmo ainda sendo acústica, conta com a banda completa; e uma versão “plugada”, que foi lançado no álbum A Mark, A Mission, A Brand, A Scar (2003), no qual a banda adota instrumentos elétricos e apresentam uma leve mudança no som.

Esta é uma das versões que eu mais gosto desta música, tocada no programa Live from Abbey Road, com a banda toda em versão elétrica. É interessante, também, ver os comentários do Chris sobre a música, antes da apresentação.

O EP conta com a participação de Dan Hoerner, da banda Sunny Day Real Estate, e foi gravado com apenas violão, voz e um eventual piano em Remember to Breathe.

A qualidade deste EP não se encontra na complexidade da narrativa, nem mesmo pela qualidade musical. Pelo contrário, a sonoridade simples e, de certo modo, mínima faz dele muito bom. Comparando com outros álbuns conceituais, So Impossible pode parecer pequeno, mas a qualidade encontra-se, exatamente, na forma como Chris escolheu representar este momento tão importante e que, certamente, tanta gente consegue se identificar. Este EP é intenso e descomplicado, assim como uma paixão devastadora deve ser.

O fim é apenas o começo

•setembro 30, 2009 • Deixe um comentário
J.R. Richards encara alguns fantasmas em A Beautiful End (foto: A. Barkwell)

J.R. Richards encara alguns fantasmas em A Beautiful End (foto: A. Barkwell)

Quando um membro de uma banda decide lançar um álbum solo, ele normalmente busca por um novo começo em sua carreira. Muitas vezes, a motivação que o artista tem para começar esse trabalho é distanciar-se um pouco do som que está acostumado a fazer e expressar-se de outra maneira.

As motivações para A Beautiful End, de J.R. Richards, vocalista do Dishwalla, certamente não foram essas. Como o principal compositor da banda, ele não se preocupou em distanciar-se do som que seu grupo faz, nem mesmo em buscar um novo começo para sua carreira. Como o próprio título do álbum diz, ele busca um final.

Dishwalla surgiu em 1994 em Santa Barbara, Califórnia, e estourou em todo o mundo com o single Counting Blue Cars, do álbum de estréia Pet Your Friends (1995). A banda lançou mais três álbuns de estúdio: And You Think You Know What Life’s About (1998), Opaline (2002) e Dishwalla (2005), além do ao vivo Live… Greetings from the Flow State (2003). Apesar de todos estes lançamentos serem muito bons e, em minha opinião, superiores ao álbum de estréia, nenhum deles alcançou o sucesso comercial do debut.

A Beautiful End

A Beautiful End

Em seu primeiro álbum solo, Richards liberta alguns de seus fantasmas e lida com perdas significativas.

A Beautiful End, a primeira música do álbum, lida diretamente com essa temática. A canção foi escrita após Richards tocar no funeral da filha de um amigo seu que faleceu de câncer aos 15 anos. Ele explica que ficou “impressionado no quanto ela afetou o mundo ainda tão jovem e levei as histórias que ouvi aquele dia”. Esse sentimento é muito bem representado em linhas que acabam por servir como um réquiem de uma bela vida e que tem uma dupla missão, tanto dar o tom que o álbum seguirá, como também passa a idéia que o fim é apenas o começo. A inconfundível voz de Richards começa bastante suave e cresce juntamente com o resto da melodia, chegando ao ápice durante o refrão, no qual ele exalta a importância da pessoa que se foi: “It’s a beautiful end to a beautiful life/a beautiful night to a beautiful day/its a beautiful end to a beautiful life/A beautiful soul gone this Day”.

J.R. liberta seus fantasmas em Ghost of Sorrow. Antes e durante o processo de composição do álbum, amigos e familiares do cantor faleceram e ele não conseguiu separar-se desses sentimentos. Para ele, a perda foi algo novo e a forma que ele achou para lidar foi escrevendo. “O fantasma em Ghost of Sorrow é aquela tristeza vindo me visitar à noite. Após estar face a face com ela, decidi que não mais a temeria”, explica Richards sobre a canção. Ao afirmar que o “fantasma da dor” o acompanha, mostra o primeiro passo para a recuperação e, quem sabe, até mesmo para a realização deste álbum. A canção se desenvolve em um crescente de emoções, começando devagar e chegando ao topo no fim, com uma frase de guitarra bem aguda, enquanto Richards faz vocalizações no fundo e termina com lágrimas. O ponto alto da letra, para mim, é quando ele se depara com essa vida sem a pessoa amada: “to live this lonely Road/is so hard to bare and hard to follow/hard to heal so hard to swallow/this love this only love will right the ghost/that’s passing through me here”.

O processo de cura é representado na bela Clearwater. Uma música composta no piano e que fala sobre a esperança que Richards tem que o mundo poderá se curar de toda a loucura que vive atualmente.

No álbum, também não podia faltar uma música que perpassasse a temática de amor. Never Forgotten é uma música de saudades, de um amor inesquecível, como o próprio título já diz. A canção se encaixaria perfeitamente na carreira do Dishwalla, mais especificamente entre os álbuns And You Think You Know What Life’s All About e Opaline. Nela, percebemos uma característica de algumas canções escritas por Richards que, mesmo sendo um sentimento ruim, ele o trata de uma forma positiva. Então, a saudades que ele sente, na realidade, é apresentada pelas lembranças boas de estar com essa pessoa amada.

A versão acima passa um sentimento diferente da versão do álbum. Recomendo conferir ambas.

Esperança também surge no álbum. The Far End of the Black foi inspirada exatamente pelo sentimento de que ele “finalmente estava vendo uma luz no fim do túnel”. Esta é outra canção que também lembra bastante Dishwalla, apesar de ela ter “ganhado vida” na interação de Richards com a banda que gravou o álbum.

A Beautiful End é um disco bastante homogêneo, com uma sonoridade única e bastante firme. Percebe-se a falta de uma segunda força criativa que trouxesse outras influências para o trabalho, como encontramos no Dishwalla com canções como Creeps in the Stone. Mas isso não compromete o disco de forma alguma. O álbum passa a ser um reflexo bastante fiel de um artista que se encontra em um momento difícil de assimilar e transpassa isso para suas composições, encontrando um porto seguro em suas canções.

Talvez, após este álbum, a perda não mais assombre Richards e, como um intenso processo, A Beautiful End tenha servido como um belo começo para que ele consiga trilhar sua vida em direção a um “beautiful end”.

http://www.myspace.com/vocaltrix
http://www.jrrichardsmusic.com

Créditos das entrevistas com J.R. Richards, AntiMusic.com.
 
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